Anti-anarquia nas escolas...

Fui criança numa época em que era obrigatório levar bibe para a escola primária e éramos castigados se não o levássemos bem lavado e o vestíssemos devidamente. Por baixo dele podíamos levar a roupa que quiséssemos mas o bibe deveria cobrir sempre essa roupa. Para todos os efeitos éramos todos iguais. Também havia separação entre escolas masculinas e femininas, para evitar distracções e misturas antes do tempo.

As carteiras onde pousávamos os livros e os guardávamos durante o tempo da escola eram de madeira e bastante espartanas sem as comodidades dos dias de hoje. Não existiam quadros electrónicos nem Magalhães nem computadores no geral e todas as operações matemáticas tinham, no máximo, de ser efectuadas pelos dedos e os mais inteligentes faziam as contas de cabeça. Eu era dos que fazia contas pelos dedos. Nunca fui bom a fazer operações mentais com números... já em lógica ninguém me batia :)

Adiante... vem esta nostalgia em linha com o que vejo diariamente em frente da Escola Secundária Marquês de Pombal, quando saio de casa para ir a um qualquer cliente. Invariavelmente tenho de passar em frente de ambos os portões desta escola e ainda do Colégio Nuno Álvares e já o faço há imensos anos. Durante este trajecto vejo todo o tipo de roupa, cabelos e atitudes. Fico chocado com tudo o que vejo porque mesmo durante os dias de maior loucura na minha juventude, nunca imaginei que as jovens chegassem tão baixo na tentativa ou numa espécie de competição para verem quem se veste pior ou quem possui o pior penteado ou mesmo atitude.

Afinal a escola continua a ser um lugar onde se vai para se aprender algo ou é apenas uma "passerelle" de vaidades entre os vários elementos que a compõem? Durante o tempo de uma aula que qualidade de ensino se consegue dar a pessoas que se apresentam vestidas e "decoradas" deste modo numa escola? Que matérias entrarão nesses cérebros? Provavelmente nada... e ainda dizem que o ensino está como está. Os alunos deste calibre não fazem qualquer esforço para se aprumarem e adquirirem auto-estima para singrar num sistema escolar que já de si se encontra debilitado e que com atitudes destas jamais se conseguirá reabilitar.

Desde há muito tempo que tenho uma proposta para reeducar e transformar a escola pública em algo desejável e novamente respeitável ao nível do que o ensino deve ser: uma preparação para a vida activa. Esta ideia nunca mais me saiu da cabeça desde que comecei a ir para o ensino preparatório, na altura para a Escola Preparatória Francisca Arruda. A ordem que trazia do lado da escola primária desfez-se e senti-me meio perdido no "mar" de miúdos e miúdas onde de repente desaguei. Senti que as directrizes de vida e estudo que me tinham dado não valiam naquele aglomerado de pequenos e rebeldes seres. Foi assustador... muito assustador.

Já nada fazia sentido e era eu contra a vida nesse preciso momento. Tentei por todas as maneiras adaptar-me e até me dei bem pois tinha uma educação rígida em casa e um sentido de estudo que sempre senti que deveria ter, no entanto via cada vez mais miúdos entrarem na escola com roupas estranhas e disfuncionais e isso produzia na minha mente reacções controversas. Por um lado via e entendia a rebeldia como algo necessário aos jovens e por outro via uma falta de estética e de sentido de responsabilidade gritantes e como esta última hipótese falava mais alto que todas as outras, fiquei com isto gravado na minha mente.

Actualmente vejo que o sentido de estética está cada vez pior e imensamente degradado entre os jovens. Os que ainda o possuem são apelidados de "betos" e os que não o possuem são apelidados de imensas outras coisas que significam mais para os jovens do que propriamente uma apresentação decente.

Então a minha ideia é a seguinte: estabelecer regras de conduta e de vestuário no ensino público. Nada nem ninguém poderia ir para a escola sem ir vestido, calçado e penteado devidamente e sem os livros e cadernos adequados (se a família não os pudesse adquirir então solicitar na Secretaria da Escola o apoio devido nesta questão) e ninguém poderá faltar ao respeito aos professores seja de que modo for sob pena de ser suspenso ou mesmo expulso da escola por mau comportamento. Deste modo tenho a certeza que a escola melhoria em termos de qualidade de ensino, de qualidade de elementos (alunos) e de qualidade de notas. Penso que todos os meios de telecomunicações pessoais (telemóveis, tablets, etc.) se deveriam deixar na entrada da escola e serem apenas usados os meios fornecidos durante o horário escolar. Também acho, mas isso talvez fosse demasiado extremo, que se devia retornar à segregação masculina e feminina como objecto de focalização no ensino e não nos assuntos laterais a ele.

Digam-me o que pensam deste meu raciocínio e se o tipo de ensino actual está bem sem ser preciso mexer em mais nada.

Comentários

Paula Veiga disse…
Ora bem, concordo em tudo e assino por baixo, a 'farda' era sempre obrigatoria e por baixo podia levar-se o que se quisesse. Eu percorri todos os 'cenarios': a escola privada bilingue, a escola de freiras e o liceu publico. Quanto as universidades percorri algumas, privadas e publicas e ainda estudo; doutoramento na Alemanha em curso...A parte do segregado acho um bocadinho extrema, mas a de deixar os electronicos a porta deve ser estendida a templos, salas de espectaculo, clinicas e hospitais e outros que nao me lembro...onde se incomode os outros. E se perca a atencao ao que se vai la fazer. Penso exactamente isso tudo, agora na universidade, seja aqui ou na Alemanha, Inglaterra ou outro pais onde vou a conferencias, cursos ou na universidade onde estudo; apelidei os jovens/estudantes de hoje de 'sujos' Porque? Desprezam o que vestem (vejo tenis de pano com buracos e sem partes da sola com neve na rua na Alemanha), vejo tshirts por cima de tshirts, calcas e blusoes de ganga, roupa rasca, rapam frio, nao lavam o cabelo, (pelo menos assim parece), o que compram no supermercado para comer pode ser tudo menos saudavel, maquilhagem nunca falta nas raparigas, cigarros sempre nos queixos e todos tem iphones, mp3, teleles e afins. Para onde vai o dinheiro, o tempo e o interesse destes jovens/estudantes/sujos? Para os copos! As festas sao sagradas! Pode nao se comer e nao se ir as aulas, e ate andar de metro a borla a fugir aos fiscais, mas os Red Bull de manha e as cervejas ate cair nao podem faltar. A falta de respeito aos professores e indescritivel, e a falta de respeito para com os outros em geral (transeuntes, alunos de pos-graduacao como eu, professores, pessoas da universidade ou empregados das lojas e estabelecimentos de comidas e bebidas e gritante! Eu estou, apesar de ainda ser 'estudante' e serei toda a vida, enojada com o 'animal' estudante! Salvam-se excepcoes. Conheco teenagers e universitarios que realmente se interessam pelo que aprendem e querem fazer algo com isso na vida. Mas pertencem a uma minoria. Como eu. Nunca voltarao a existir as regras da nossa infancia e juventude para a escola, nem para coisa nenhuma. Veja-se o comportamento adulto nos transportes e nos locais de atendimento publico, nos aeroportos, nos hospitais, etc. Cada um por si, cada um mais mal vestido que o outro (nao por necessidade), cada um mais bronco que o proximo. E viva a democracia! Que hoje em dia se confunde com anarquia. Espero sinceramente ter saude e poder reformar-me cedo, pois os meus problemas de saude vao obrigar-me a isso, apesar de estar a fazer um doutoramento na Alemanha a caminho dos 50 anos de idade. E vou viver para o Alentejo, onde hajam poucas pessoas. E modos. Tenho dito.
Muito obrigado pela tua fidelidade Paula :) É realmente um problema social de extrema gravidade a bandalheira a que se deixou chegar a componente escolar. Penso que numa escola reúnem-se todo o tipo de frustrações sociais e todo o tipo de diferenças de educação parental que se possam imaginar e tudo isso misturado não pode nunca dar nada de bom. Muitas são as vezes em que se vê carros da Polícia na porta da escola que menciono e à frente da qual passo todos os dias, na tentativa de separar rixas e prender os agressores. Enquanto não se agir activamente e com força nestas situações, nunca vão desaparecer. Não sou de todo apologista da segregação social e sou adepto da filosofia de dar chance a todos em igual proporção, mas existem certas alturas em que a segregação seria a solução ideal para certos elementos que nada estão a fazer nesta sociedade a não ser gerar conflitos e ainda "gozar" com a situação.

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