Capitalismo galopante...

Em conversa com um amigo entendido em Economia dei por mim a derivar e a ter uma espécie de experiência "extra-corpórea" enquanto ele dissertava acerca dos benefícios da sociedade capitalista em detrimento das sociedades ditas "comunistas".

Dizia ele com imenso orgulho na voz, que na sociedade capitalista, o mercado pode tudo. As leis dos mercados incentivam e/ou condicionam as economias dos países que deles dependem directamente e que segundo as leis macro-económicas nunca pode existir um país que não dependa de qualquer mercado, ou seja, que se torne auto-suficiente criando e produzindo os seus próprios bens de consumo e auto-limitando imediatamente a sua actuação às fronteiras físicas e políticas do seu território.

Lembrei-me logo de seguida da imagem que reproduzo aqui ao lado. Nesta gravura de época, definem-se claramente as funções de cada degrau do sistema capitalista e onde reconhecemos de imediato quem é quem na nosso ambiente político, burguês, militar e clerical. Pensei na estupidez do povo que apesar de reconhecer que isto existe, nada faz de concreto para inverter esta cada vez mais absurda tendência.

Fazendo a ponte com o que acontece na actualidade com o governo que nos gere (PSD/CDS), detectei que a última plataforma da gravura é demasiado pequena para sustentar a multidão de gente que nos retira os recursos e nos suga a vida. Esse meu amigo sugere ainda que "do mal o menos" e que se tivéssemos um governo puramente comunista não iríamos gostar igualmente, pois baseia-se no lucro do Estado que entretanto distribui recursos conforme lhe apeteça sem nunca ser questionado ou sancionado em eleições livres e isentas (sim claro, como se os nossos actuais sufrágios fossem "livres e isentos").

Conversar com alguém que foi formatado pela Faculdade de Economia e inserido até "ao pescoço" na sociedade que tanto criticava quando era mais novo, é um autêntico paradoxo. Olhando para aquela face de "rebelde contido e açaimado" imaginei as lutas pessoais por que passámos quando éramos novos na rua onde crescemos. Uma rua bastante complicada pois no passado tinha muita fama e ainda hoje as coisas nesse campo não amainaram.

Daquelas épocas até hoje muito se passou. Ele saiu desta área e eu... fui ficando. Ele subiu na vida e eu mantive o mesmo nível de sempre, com algumas variações mas ainda assim com um resultado mediano. Ele formou negócios, construiu um pequeno império e devido às suas opções estratégicas e de recursos humanos, desmoronou-se... e eu... cá continuo na minha vida mais ou menos estável. Não sou grande capitalista mas também não tenho sonhos demasiado altos e por isso talvez tenha conseguido manter algum do nosso ideal inicial: ter um negócio próprio e lutar por ele.

Ele sempre esteve habituado a grandes orçamentos e por isso nunca soube gerir pouco dinheiro. No momento em que os negócios lhe exigiam mais recursos do que aqueles que ele conseguia providenciar, entrou em ruptura com ele próprio e desmoronou-se. Eu, sempre com orçamentos minúsculos e negócios "low-cost" fui escapando aos poucos de todas as crises que me foram aparecendo pela frente. Brincar ao Capitalismo é muito engraçado mas é reservado apenas a quem o sabe fazer e quem tem sólida formação para o efeito. Não é coisa para uns simples rapazes que cresceram numa rua complicada como sempre foi a nossa.

Expressem o que pensam sobre o que acabei de descrever. Sei que é pessoal mas ainda assim deve retratar muitas realidades que se espraiam por esse território português fora.

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