As sombras da minha rua...

Esta rua de toda a minha existência tem muitas histórias sombrias para contar. Umas melhores, umas menos boas e a maioria péssima para a sua reputação e para a fama de quem participou nelas. Personagens degradantes e densas povoam ou povoaram esta faixa de alcatrão entre a Calçada da Boa-Hora e a Rua Alexandre Sá Pinto em Lisboa. Uma rua bela, uma paisagem bela, um passado tortuoso e degradante para muitos dos seres humanos que a habitaram durante gerações.

Passado nebuloso que tanto teve de heróico como de horrível, a envolvente rua pesa no meu passado e no meu presente. O seu peso define-me como pessoa e como cidadão. Como pessoa porque passei por muitas vicissitudes neste pedaço entre um muro e vários prédios de habitação. Do lado do muro era considerado o filho de alguém odiado e segregado por quem morava do lado errado da vida. Do lado dos prédios era considerado um menino da rua sem educação e sem futuro, filho de um agente da autoridade conflituoso e com reputação de alcoólico.

Entalado entre dois mundos e não pertencente a nenhum deles, a minha existência procurou a fuga a todos os problemas e históricas que por muitos e longos anos se foram acumulando nos cantos mais sombrios da minha mente absorvidos pelos olhos que tudo viam, tudo detectavam e tudo absorviam. A convivência com elementos não aconselháveis determinava o dia-a-dia, o futuro que se adivinharia negramente cheio de espinhos e devassado pela desertificação de ideias e de ambições.

Um amigo surgiu do negrume do pavimento: o Diogo. Um homem já nos seus trintas e que me arrastou para outras realidades e outras vivências mais agradáveis e menos perturbadoras, encaixando a minha existência numa roda-viva de emoções e de conhecimentos, partilhando muitos dos momentos mais felizes e mais tristes da minha vida até ao seu desaparecimento por volta do início dos anos 90 do século XX.

Pela influência do Diogo tive o meu primeiro emprego e conheci as primeiras raparigas a sério e tive as primeiras chances reais de poder fugir à realidade que me assolava no meu acordar diário. Eu era apenas um rapaz que sonhava dar aos seus pais e irmã, a vida que nunca tiveram mas que lhe faltava a educação e a definição de vida para o poder fazer. Com o Diogo tudo isso aparecia no horizonte como por magia.

A força de querer fazer e mostrar que sabia como fazer assomava diariamente. Queria aprender para poder executar melhor e com mais perfeição, fruto de todas as falhar educativas até então. A minha mente ajustava espaço para os novos conhecimentos atirando para o "arquivo-morto" da minha existência, todas as experiências negativas até então vividas.

Durante toda esta época, a minha rua continuava na sua vida, impávida e serena, criando e degradando mentes e vidas. Actividades devastadoras para as personalidades dos mais pequenos apoiadas pelas pessoas que mais deveriam proteger a sua vida. Pais, tios, sobrinhos e até avós participavam em actividades comerciais de venda de corpo e lavagem de dinheiro proveniente do comércio de droga. Eu, diariamente e sempre que podia, fugia destas movimentações e caminhava na direcção da "luz", localizada na área da linha do Estoril.

O problema estava na volta... a realidade da minha vida caía como a noite e fazia-me descer ao que era viver nesta faixa de alcatrão durante anos a fio. Muitas foram as vezes em que me recusava voltar. A dualidade de vida onde estava inserido e a impossibilidade de trazer alguém para conhecer a casa onde morava, levava a que me distanciasse cada vez mais desta rua maldita e por sua vez da minha família, tentando por tudo, criar algum tipo de base nas novas realidades e vidas que me habituei a viver. Esta rua prendia-me, sufocava-me, enlouquecia-me e saturava-me. Queria libertar-me e viver como um miúdo normal mas também rapidamente me apercebi que os miúdos ditos normais da minha rua ou de outras ruas, não eram tão ricos em histórias interessantes.

Das minhas histórias e da minha força de vida, vieram as atenções sobre mim e também graças à dualidade de sentimentos originários na minha rua, fui singrando e sendo apreciado conjuntamente por mais novos e por mais velhos. Esta rua tinha-me dado fundamentos e forças para alguém me apreciar para além do estar vivo. Riam-se e interessavam-se pelo que eu presenciava e alguém interessaram-se ao ponto de querer conhecer presencialmente a aura misticamente descrita por mim nas coisas que contava.

Nas sombras da minha rua me criei, nas sombras da minha rua me desenvolvi, nas sombras da minha rua absorvi a experiência de vida e das sombras da minha rua darei testemunho a quem mo exigir ou a quem me quiser ouvir.

Aprendi a gostar da minha rua. Aprendi a pertencer a ela e a ser dela para sempre. Daqui só me moverão dentro de um caixão e para a última morada me levarão. Tantas histórias terríveis produziste e tantas vidas destruíste... mas cá continuamos juntos até à eternidade ou até que um de nós seja destruído pelo progresso ou pela velhice. Sou teu... serei sempre teu, minha rua querida.

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