Subserviência total oficializada...

A partir do dia 13 de Maio de 2015 somos obrigado a escrever como brasileiros em nome de uma convergência da língua portuguesa a uma só grafia que, alegadamente, será única em todos os países da chamada Lusofonia. Temos, no entanto, vários problemas a saber: Portugal é "mais papista que o papa", o Brasil adia constantemente a implementação do acordo, Angola e Moçambique querem lá saber disso, São Tomé e Princípe quer é ter meios de subsistência e não estão interessados em mixórdias de acordos linguísticos, Timor está-se a borrifar para o português, "entalados" que estão entre o indonésio (deviam ter ficado com eles) e o inglês australiano, Macau é chinesa e longe vão os tempos da lusofonia nessas paragens, Cabo Verde umas vezes aplica o acordo e outras está como Portugal... esquece-se do aplicar e Guiné-Bissau... é o que se sabe, uma confusão de interesses em que o português será a última das suas preocupações.

No final desta fila de desinteressados está o último dos países a integrar a C.P.L.P. (Comunidade de Países da Língua Portuguesa): a Guiné Equatorial, que de portuguesa apenas tem o nome já traduzido para a nossa língua. Foi motivo de chacota por todos os intelectuais portugueses. Um país com uma língua oficial que nada tem a ver com os outros membros dessa comunidade foi aceite como parte integrante e de pleno direito só porque interessava ter acesso aos seus poços de petróleo e às suas áreas de riquezas naturais ainda não exploradas. Sarcasticamente falando, será que os interesses puramente económicos terão tido um enorme peso nesta decisão? Hummmm... não sei...

Nesta salada de acontecimentos onde pára a moralidade para aplicar um acordo mal desenhado, mal implementado, maldito, mal estimulado e mal educado? Em lado nenhum. Somos apenas os soldadinhos que se chegaram à frente do exército prontos para serem chacinados em nome de uma língua que já não é deles e que perdeu a sua identidade original no dia em que o governo PS do "Eng." José Sócrates, assinou a sua morte cultural.

Nesse malfadado dia, o governo desse malfadado primeiro-ministro, enfrentava a pressão da União Europeia para intermediar a negociação de novas áreas de exploração de petróleo com o Brasil, mas como as duas línguas, apesar de serem parecidas, ainda assim eram muito diferentes nos seus vocábulos e isso produzia um conflito de entendimento entre os interesses de lá e de cá do Atlântico quanto ao "ouro negro". Como se ultrapassa esta dificuldade em prol do fornecimento de mais uns milhões de barris de crude? Vendendo a identidade cultural central de um povo milenar: o português europeu.

E assim estava dado o golpe de misericórdia neste canto à beira-mar plantado no que concerne à perda da sua raíz mais querida: a sua língua materna e o modo como se escreve na sua essência. Mas esta história haveria de dar mais umas reviravoltas e o Brasil que só de costa marítima engloba a Europa toda desde o Cabo da Roca na Serra de Sintra até aos Montes Urais na Rússia (se esse território pertencesse à Europa), voltou-se ironicamente para Portugal e disse-lhe: "não sabemos ainda se estamos dispostos a integrar a nossa língua convosco só para que nos possam vir beber o nosso petróleo". Estava instalado o caos nas relações entre Portugal e o Brasil e que subsistem até hoje no que concerne ao modo como o português se escreve nas duas margens do Atlântico.

Portugal não podia recuar sob pena de ser considerado fraco e sem expressão nas negociações (onde e quando é que já vi este filme a acontecer com o nosso país pela enésima vez?) e o Brasil do alto do seu "poleiro" negocial ditava ordens para a "formiga" europeia que tem sempre a mania das grandezas: "tens de fazer assim e assado e não pias senão nem uma gota de petróleo sai para a Europa". Portugal meteu o "rabo-entre-as-pernas" e aceitou subservientemente todas as ordens dadas tanto pelo seu "patrão" europeu como pelo seu "coroné" abastado do outro lado do oceano.

As diferenças abismais entre as duas escritas continuam a existir e cada vez são maiores ao ponto do Brasil considerar que o espanhol seria muito mais vantajoso como língua oficial do Brasil para as transacções comerciais com os seus vizinhos da América do Sul e com todo o resto do mundo, relegando para a terceira posição a língua que aprendeu com os portugueses (a segunda seria obviamente o inglês). Ora neste estado de coisas que vontade temos nós, simples moradores neste canto longínquo de todos os centros de decisão europeus e brasileiros, de sequer considerar remotamente, aplicar o malfadado acordo? Nenhuma!

A resistência natural que os portugueses no seu âmago diário, inflingem à aplicação desse chorrilho de idiotices perpetradas por um ferrenho apoiante deste acordo de nome Malaca Casteleiro que considerava "um passo muito importante em prol da promoção da língua portuguesa numa perspectiva estratégica, diplomática e económica". Sabia lá ele do que estava a falar neste momento. Protagonismo todos gostam de ter, mas em cima de algo tão polémico é como um "tiro-no-pé": ficou a ser odiado pelo povo e adorado no seu círculo de amigos (e mesmo assim duvido muito que o seja).

Portugal continua a sua senda de obrigar tudo e todos a integrar o nunca desejado acordo e a partir do dia 13 de Maio de 2015 todos os organismos oficiais só terão uma grafia autorizada e sem a qual os textos serão considerados cheios de erros de ortografia: o brasileiro. Somos, desde modo, brasileiros por decreto e portugueses por conveniência da geografia.

Comentem esta barbaridade e integrem movimentos de resistência ao acordo espalhados por toda a internet. Somos únicos e na nossa unicidade somos os originais. Batamo-nos pela única coisa que nos torna quem somos: a nossa língua e o nosso modo de escrever correctamente o português. RESISTÊNCIA SEMPRE E PARA SEMPRE!!! PORTUGAL É NOSSO!!!

Comentários

Marcel Cesar disse…
Vejo alguns problemas en sua análise. Os que mais chamaram a atenção são os seguintes: o Brasil já adota o novo acordo a pelo menos 2 anos, sendo obrigatório nas escolas, publicações e qualquer comunicação oficial. O outro ponto é a questão do Brasil "preferir" o espanhol... Os brasileiros abominam espanhol, a nós soa como um português falado muito errado.
Também discordo de que se imponha a Portugal um acordo que normatiza, basicamente, o modo de se falar no Brasil como oficial, até porque a forte influência do italiano criou uma variante do português que dificilmente se identifica com a língua mãe vinda de Portugal. A diferença entre as duas é muito maior que a diferença entre inglês falso na Inglaterra e o falso nos Estados Unidos.
Boa tarde Marcel, muito obrigado pela sua intervenção a qual, melhor que ninguém deste lado do Atlântico, prima pela visão local desta problemática. No entanto, gostaria de frisar, que a minha visão prende-se com a realidade portuguesa desde lado do mar e com a realidade inserida numa comunidade que nos governa como se fossemos um território geográfico e não como um país soberano e com um povo e cultura milenar, a respeitar. Desse modo, somos empurrados a fazer coisas debaixo das leis da "coesão" europeia, que nos são totalmente abjectas como povo orgulhoso da nossa história e da nossa existência. O caso mais absurdo foi, exactamente, este acordo/desacordo, que nos retirou uma das poucas coisas que podíamos considerar nossa: a língua.

Nem já neste campo temos exclusividade e isso entristece-nos mais ainda do que os brasileiros têm consciência que somos. Isto tudo para introduzir a resposta ao seu comentário e que lança mais alguma luz sobre esta questão. Realmente a ideia que os brasileiros tinham intenção de abraçar o espanhol como língua oficial para que o comércio com o MercoSul fosse mais facilitado, foi lida algures num site brasileiro e que colocava em perspectiva toda a loucura deste acordo ortográfico.

Não tinha obviamente a visão da opinião do brasileiro comum, mas sim a opinião de professores de 2 universidades estaduais (infelizmente não consigo encontrar esse artigo e pelo facto, peço desculpa). O que importa aqui referir é que as coisas estão no estado que estão, devido às cedências que quem nos governa (tanto de um lado como do outro deste grande mar), fazem aos interesses económicos em detrimento aos interesses culturais e étnicos.

Aparentemente, não interessam os povos, as suas crenças, as suas origens e os seus modos de vida, mas sim o mercado global que não olha a meios para consumir os recursos físicos e intelectuais até à exaustão (enquanto existirem humanos, existirá sempre este desfasamento de entendimentos). Não interessam as fronteiras, os limites legislativos, as constituições nacionais, a vontade dos povos, nem sequer o respeito pela existência de minorias, o que interessa mesmo é o modo como se deve facilitar a economia sem existirem entraves à mesma.

Portanto, tanto portugueses como brasileiros, são apenas peões neste mundo absurdo e onde se vive a uma velocidade estonteante e incompatível com a dignidade humana.
É verdade que os alunos brasileiros não aceitam bem a obrigatoriedade de aprender espanhol nas escolas. Aliás detestam e não aprendem nada, porque, em geral, ele é mal lecionado. João Paulo, em sua análise, afirma: "somos obrigado a escrever como brasileiros". Isso não corresponde à verdade, já que o Brasil passou a ser obrigado a escrever ideia, colmeia, assembleia, paranoico (e tantos outros exemplos) sem acento, como os portugueses escrevem. Escrevemos agora como os portugueses. Escusado dizer que todos erram. Nos substantivos compostos por 3 palavras, criaram-se mais exceções ainda, quando a proposta da RO era justamente eliminá-las. A falta de lógica da RO é gritante: cor-de-rosa (com hífen), mas cor de laranja, cor de grafite etc, etc (sem hífen). Para ser breve, não dou mais exemplos de outras infinitas situações gramaticais. Os gramáticos que fizeram a RO, levaram 19 anos de tempo, trabalho, e recursos dos respectivos governos para fazer uma imbecilidade inacreditavel! A população brasileira não foi consultada antes de o AO ser assinado. Foi imposto. A reação a ele foi muito negativa por parte de alunos e professores. Porém, como é exigida nos exames de aptidão à universidade os alunos curvam-se a isso, contrariados e inseguros. Sou portuguesa, residente no Brasil há 40 anos, professora universitária e professora particular de curso preparatório para o Vestibular. Acredite, todos nós fomos lesados em ambos lados do Oceano Atlântico.