Capitalizar as crianças...

Passei pelo maior centro comercial da Europa (Dolce Vita Tejo) numa das minhas rondas por clientes e vi a KidZania lá num canto e lembrei-me de ficar a observar o funcionamento daquele colosso. Que raio de ideia foi aquela de puxar as crianças tão novas para dentro de um mundo onde o dinheiro (ainda que seja o interno da empresa), é a moeda de troca e onde se injecta em miúdos tão novinhos a ideia do capitalismo atroz?

Fez-me confusão ver também outro dia uma reportagem da TV francesa onde descreviam a abertura de mais um "franchising" da KidZania no Reino Unido. As crianças todas alinhadas para levantar maços de "notas" do dinheiro interno e quando recebiam, iam logo planear comprar coisas dentro do recinto. O incentivo mais uma vez ao capitalismo é devastador para a mente de jovens que ainda não têm capacidade para distinguir vontade própria e/ou controlo das suas próprias finanças.

É louvável o facto de se pretender orientar as crianças para uma profissão de futuro, mesmo apesar desse futuro ainda estar bastante distante e as mudanças químicas nas mentes dessas crianças o poderem limitar ou alterar, mas uma coisa é fazer isso e outra é introduzir o conceito de dinheiro. O "vil metal" é tóxico nas idades adultas, quanto mais nessas idades. Estamos a produzir crianças mais felizes ou mais agarradas ao ciclo interminável do dinheiro?

Quem lê estas linhas pensa que sou contra o conceito deste espaço, mas não poderiam estar mais errados. Sou bastante a favor, mas com preços mais em conta e sem a degradação do sentido do capitalismo. Anda tanta gente a tentar fugir do ciclo vicioso do dinheiro e vem a KidZania envolver, prematuramente, estes jovens nesse "carrocel" de emoções.

Depois de entrarem no recinto, os pequenos têm acesso ao banco interno onde vão trocar dinheiro real por dinheiro interno. Depois dessa fase é uma correria para as lojas e para as diferentes posições nos trabalhos internos que a organização disponibiliza para as diferentes crianças. Todos querem experimentar tudo a ver se se adaptam bem às diferentes funções e tentar ganhar dinheiro para poderem gastar novamente nas diferentes lojas.

Esta economia interna legitima a ideologia de consumismo desenfreado e provoca com que as crianças desenvolvam muito cedo a dependência do dinheiro mas também, e ao mesmo tempo, um sentido de poupança e de amealhamento para mais tarde conseguirem mais notas do dinheiro interno.

Quem concorda com este tipo de educação ponha o dedo no ar e quem não concorda... não se mexa :D Digam-em de vossa justiça, o que entendem pela filosofia inerente à KidZania.

Comentários

Joana Cardoso disse…
Chegaste a la entrar?
Ja la fui umas 4 ou 5 vezes. Nunca vi isso de trocar dinheiro real pelos "Kidzos". O que acontece e que cada bilhete de entrada de criança da direito a um cheque de 100 kidzos e, esse sim, eles vao trocar ao banco por dinheiro... Depois nao ha "lojas", ha apenas uma, um supermercado onde existem apenas produtos alimentares e o resto sao serviços de lazer, tipo discoteca, pista de automoveis, tirar a carta, andar de autocarro, fazer escalada ou ir ao salao de jogos.
Nao sei como e com as outras crianças, so posso falar pelo meu filho, sobrinhos e prima, mas a minha experiencia e que eles dao muito pouca importancia ao dinheiro e "trabalham" com muito gosto nas actividades que lhes sao propostas. Acho que encaram aquilo mais como um Portugal dos pequeninos ao estilo moderno e mais interactivo, sendo o dinheiro completamente secundario ou mesmo terciario.
Mas, e embora ate entenda o teu ponto de vista idealista, nao sou contra a ideia de ensinar as crianças que os produtos materiais que se desejam custam dinheiro, assim como o lazer ou futilidades e que para ganhar esse mesmo dinheiro tem que trabalhar honestamente, seja a lavar janelas ou como veterinario. Ate acho que os ajuda a encarar o trabalho como uma coisa boa e nao o maior dos fretes...
(e este comentario ja vai quase tao longo como o teu post... :) )
Este artigo foi escrito com base nos espaços português e da Cidade do México, onde abriu há pouo tempo um espaço Kidzania nuns moldes algo diferentes e adaptado à realidade mexicana. No entanto eu nunca entrei propriamente no espaço português. Apenas acho que suscitar e apoiar essas coisas nas crianças, é uma violência psicológica e uma pressão desnecessária. Deixem as crianças serem isso mesmo e deixem-nas brincar à vontade, sem misturas no mundo conspurcado e cheio de defeitos dos adultos.