Fézada (abençoado seja o meu nome)...

Fui passar uma parte do dia 1 de Agosto de 2015 em Fátima e dei por mim a percorrer aqueles cantos e recantos que são de todos os peregrinos e de mim apenas por uma questão turística e familiar.

Olhei para todos os "cordeiros" que por ali andavam, uns portugueses, outros "emigreses", outros guineenses, outros espanhóis, entre muitas outras raças e credos e como sempre, noto muitas coisas que o normal dos mortais não nota... desta vez foi a quantidade de pessoas manipuladas na sua livre-vontade e no seu livre-arbítrio.

Toda esta gente pensa, ou pelo menos imagina, que estão ali devido à sua fé ou à sua vontade de cumprir uma promessa. A "máquina" psicológica que cilindra diariamente esta gente tem o dom "celestial" de se esconder nas sombras e nos cantos mais obscuros da mente humana. Controlar e acalmar é a sua função primordial para que as multidões não se revoltem ou não mostrem intenção de o fazer. Os campadrios com a classe política são tão vastos que fede só de pensar nisso.

O esforço mental para conseguir chegar ao fundo do "poço" de onde tudo isto sai é de tal forma vasto que prefiro nem começar a "desfiar o novelo" nessa vertente da questão. O que pretendo dizer é que as pessoas estão de tal forma dominadas pela religião católica neste pequeno canto do mundo, que nem se questionam com o que vêem à sua volta. Tudo cheira a dinheiro, tudo é negócio e tudo é artificial.

Não me gostava de centrar na parte inverossímil da história que, obviamente, é falível por todos os ângulos possíveis. Onde quero mesmo iniciar a questão é pelo "hipnotismo" generalizado que todas as pessoas que se dirigem àquele pedaço de terra, dizem que sentem e que parece escapar-me de todas as vezes que me desloco lá (já não ia lá há muitos anos mas a sensação continua a ser a mesma). Já me questionei algumas vezes sobre a minha falta de compatibilidade com essa histeria religiosa generalizada. Serei eu uma "ovelha negra" ou alguém que apenas gosta mais de ver as coisas por outros ângulos e, por conseguinte, detectar complicações nas "engrenagens" do poder, seja ele político ou ecuménico? Voto mais na segunda opção.

Ninguém parece incomodar-se com o nível de economia que tudo isto gera nas redondezas do enorme espaço destinado aos peregrinos e que ocupa a maioria da área central entre as laterais do santuário. Sejam eles hotéis, restaurantes, casas de "souvenirs", vendas de velas e gente a pedir, todos tentam sobreviver à conta da ingenuidade e necessidades vitais das pessoas que, a reboque da sua fé, se sujeitam a preços disparatados e a oportunismos. Não é apenas na área do santuário que tudo isto se nota. Se alguém se deslocar onde, alegadamente, os pastorinhos moravam (Valinhos), vão encontrar um circo de negociantes e de casas abertas para o turista que esgota a noção de decência e de criatividade naquele ponto de Portugal.

Esta gente nem sequer consegue fazer um estudo de mercado para saber se o negócio em questão irá singrar ou não naquele local. É porta-sim, porta-sim com o mesmo tipo de bugigangas para venda e aliciamento do turista. Depois queixam-se da crise e da ausência de interesse das pessoas que visitam aqueles locais, pelo que vendem nessas casas... pudera... é tudo igual. Onde está a diferença? Muitas vezes até as casas pertencem ao mesmo proprietário e fazem concorrência a elas próprias. Um absurdo do ponto de vista do negócio.

No meio disto tudo, o que menos importa é a "fé". O tal sentimento que leva ali pessoas de todo o mundo, para experimentarem a tal sensação de paz e de meditação que, a bem dizer, qualquer parte do planeta e qualquer espaço mais silencioso proporciona sem estarem expostos às necessidades básicas do ser humano e se tornarem, de imediato, potenciais alvos para os negociantes sem escrúpulos da zona.

Eu gostava muito de não pensar nestas coisas e até por vezes imagino que tenho algo de errado na mente, no entanto, penso que como eu, devem existir mais pessoas que olham para todo aquele aglomerado de gente e pedras e as vê como realmente são: gente equivocada, gente falsa, gente enganada, gente arrogante, gente parva, gente ignorante, gente porca e talvez a pior de todas, gente ingénua e manipulável. É desta última classe que (a maior parte da mole humana vista todos os anos a deslocar-se a esta área), a igreja lá quer.

Gente que aceite por definição tudo o que lhes indicam e tudo o que é suposto acreditarem sem nada colocarem em causa. Quanto às pedras referidas, alguma coisa tinha de ser feita para reter toda aquela gente e dar credibilidade ao espaço, no entanto a sensação de familiaridade nesta zona, esfumou-se. Agora, tudo parece grandioso e menos pessoal do que antes. Até uma simples exposição de artefactos do passado, foi engolida por um espaço amplo, desprovido de alma e de proximidade.

Foram igualmente construídas capelas para o tipo de reza que se pretenda fazer. Até nisto se personalizou o culto dos ingénuos. Quem quer rezar à "morte" de Jesus, pode fazê-lo numa área destinada a tal, quem quer rezar ao "renascimento" de Jesus, poderá fazê-lo noutra área contígua. Isto cria separação e fricções internas, como atestei pela discussão entre duas, aparentemente "beatas de província", que me pareceu sobre a importância de uma situação ou de outra na vida de cada uma. Aqui entra a parte da gente má, pois de uma discussão destas pode muito bem resultar uma ou duas mortes por convicções religiosas. Por muito menos já se assassinaram pessoas.

Gente falsa e ridícula é aos pontapés. Basta colocar-nos num canto e observar as pessoas que dirijem para o culto das 11 da manhã. Reparar como vêm vestidas para uma área de actividade religiosa. Minisaias, calções quase até ás mamas com as pernas a verem-se na totalidade, mamas quase de fora, muitos jovens cheio de "swag" (Secretly We Are Gay), que nem percebem ou sabem o significado disso, etc. Vêm para um sítio destes como se fossem para um cinema ou para um concerto de alguma banda conhecida. Não sou religioso, no entanto sei distinguir onde podemos vestir de um certo modo ou não. tem a ver com bom-senso e isso é transversal a qualquer religião ou estado de espírito.

O cumprimento de promessas através da queima de velas é também algo surreal. É um velódromo (tanto pelas velas em si como pela velocidade a que tudo se processa e aos cartazes que estão por todo o lado a dizer para atirar a vela para dentro do fogo e a promessa fica cumprida)... nem tempo há para (quem acredita) rezar um bocado antes da vela ser atirada para as chamas da "redenção". O calor que se sente naquele local é infernal e pouco aconselhável a rezas demoradas. Também a fila que está sempre presente para esta actividade vai empurrando sempre os mais incautos, despertando-os do seu torpor fervoroso.

E foi esta a minha "aventura" pela terra mais religiosa de Portugal. Que me dizem vocês do que vêem estas lentes que me cobrem os olhos e o que me dizem destas coisas que me apoquentam a alma de cada vez que viajo para algum sítio, seja ele longe ou perto?

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