Cascais algarvio...

Cascais é o Algarve para ricos. Tirem a parte da arquitectura das fachadas dos edifícios e tudo o resto cheira a Algarve em pleno Verão. Estrangeiros em quantidades copiosas, vendedores de todo o tipo tentando subtrair o mais pequeno cêntimo ao turista incauto, fauna local a babarem-se pelo sítio onde moram (ou tiveram a "sorte" de estar de passagem), meninos ricos a passearem nas suas grandes bombas automobilísticas, ... Cascais é a epíteme algarvia mais a norte.

Numa relativamente pequena faixa da orla marítima, acumulam-se e acotovelam-se negócios de vários tipos, todos voltados para a restauração, hotelaria, moda, imobiliário e desportos de todo o tipo, prevalecendo os aquáticos. Não conheço mais nenhuma área tão aguerrida para sacar dinheiro aos turistas veraneantes (e não só), e tão compacta, tão a norte do Algarve, como esta. Transformou-se numa verdadeira "tourist-trap".

Mesmo que um português não queira gastar dinheiro... um português tem de gastar dinheiro (nem que seja para não se sentir mal pelo ambiente de consumismo desenfreado). A simples ida ao WC desencadeia uma ansiedade de integração com o local onde vamos fazer a necessidade vital à nossa existência e, obviamente, temos de gastar uma moeda que pode ir desde os €0,50 aos €3,00 (conforme a necessidade fisiológica e o sítio onde a vamos depositar). Tudo funciona nesse modelo e sem esses moldes não vale a pena ir para estes sítios porque só nos faz mal à retina e ao bolso.

A plácida Cascais de outrora já não existe. Existiu em tempos com a sua calma e passo temporal adequado aos seus habitantes mais apreciadores de ambientes sofisticados e selectivos. O seu ambiente fidalgo e burguês, foi substituído pela degradação da avidez consumista. Pelo capitalismo galopante que tudo reduz a meros números e pouca humanidade. Onde o tempo nada significa e apenas se confunde entre momentos de luz e momentos de escuridão (que até neste ponto já nem é bem assim).

Até a bela paisagem da colina sobranceira ao mar, onde antigamente jazia o Hotel Estoril-Sol, foi substituída pela "modernidade" de um conjunto de blocos gigantescos e desfasados da arquitectura envolvente. Os comentários que se ouvem a quem olha tal "obra" arquitectónica, cobre diversas nuances do insulto a quem desenhou tal abominação e, principalmente, a quem autorizou tal desfaçatez, destruíndo para sempre um ambiente que se pretendia intemporal e integrador.

Salva-se a bela cor das águas que banham tal pedaço da orla marítima portuguesa: ora azul turquesa, ora verde esmeralda, as tonalidades vão-se alterando conforme o ângulo de incidência do sol. Corpos bronzeados ou mesmo vermelhos-lagosta, vão-se retorcendo e espojando à procura da fórmula mágica para manter o mais possível, no tempo, a cor que adquiriram durante os meses de exposição ao calor que banha esta bela baía.

Recordo com alguma saudade os tempos em que apenas alguns veraneantes visitavam tal espaço da nossa costa. Não eram muitos, mas eram bons e com alguns deles tinha conversas interessantes na minha época de juventude e jovem adulto. Foi um óptimo sítio para se crescer e abrir as "asas" para a vida. Fizeram-se bons amigos que ainda hoje recordamos com saudade. Crescer na Cascais de hoje... não seria tão delicioso nem tão envolvente. Vive-se depressa demais e desfruta-se pouco dos tesouros que Cascais ainda subtrai aos olhares do turismo desenfreado.

Os sítios que fizeram as minhas delícias ainda lá estão... mas demasiado explorados e demasiado expostos para se recuperar o ambiente de outras eras.

Para quem viveu ou visitava Cascais noutros tempos com alguma frequência, digam-me o que sentiam ou o que significava para vocês tal localidade do nosso "jardim à beira-mar plantado". Moldou a vossa existência ou nada fez pelo que são hoje? Partilhem a vossa opinião sobre esse cantinho do paraíso que já não o é.

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