Revoltadamente distante...

Resisti, resisti e voltei a resistir a publicar algo tão terrível relativo a esta pandémica polémica dos refugiados. Sou sensível a ela mas estou desesperadamente distante e sou esmagadoramente pequeno para fazer qualquer diferença na vida destas pessoas. Estando impossibilitado de o fazer no local, tento com esta minha "pena", escrever sobre estas imagens que me fizeram sentir algo profundo e revoltante.

As lágrimas rolam pela minha face enquanto escrevo este artigo. Chorei com estas imagens. Chorei a imaginar tudo o que se pode ter desenrolado para que esta criança terminasse a sua vida nestas areias. Ando sensível devido a diversas situações que se passam na minha vida... mas perante estas imagens não resisti ao choro. É extremamente comovente a dor de ver um pequeno ser desamparado e sem qualquer esperança. Uma criança de tenra idade jaz prostrada, sem vida, numa qualquer praia da costa turca. Uma criança de tenra idade cujos pais tentaram a todo o custo deixar para trás uma zona de conflito e avançaram para um objectivo sem destino que jamais poderiam imaginar que iria acabar deste modo para o seu amado filho e, quiçá, para eles próprios. Uma criança ainda com a sua roupa ensopada até aos ainda tenros ossos e os seus sapatinhos calçados, sem vida. Poderia ser tudo o que quisesse ser se tivesse tido oportunidade para isso, mas... já não o poderá fazer. Uma criança vestida, com certeza, com a única roupa que os seus pais conseguiram trazer no corpo quando saíram das suas casas, jaz sem vida numa praia distante. Talvez o único descendente de uma família que com isto se acaba neste planeta. Talvez os seus pais se tivessem salvado mas perdido o seu filho no mar e choram, tal como eu, a sua perda. É muito doloroso olhar para estas imagens mas tenho de retirar tudo o que sinto cá dentro e traduzir na escrita que sei.

Quantas vidas se estarão a arruinar nesta desgraça de proporções bíblicas? Quantas famílias estarão a ficar destroçadas por perderem os seus descendentes e familiares mais próximos? Quantos pais perdem os seus filhos ou filhos perdem os seus pais? Ninguém sabe ou se interessa realmente...

Apesar de saber que toda esta gente foge da guerra para tentar uma vida melhor nesta nossa Europa cada vez mais corrupta e insensível ao ser humano, seria mais proveitoso que se intervisse directamente nos conflitos dos países de origem para que estabilizassem e se criasse novamente uma sociedade que pudesse acolher toda esta gente que tenta desesperadamente escolher um destino para as suas miseráveis vidas.

Se não tentassem migrar para a Europa, para onde iriam eles? Este nosso território representa um "Eldorado" para estas almas que nada mais conhecem do que a guerra, o medo, a fome e a morte. África não é opção em nenhuma das suas áreas à excepção, talvez da África do Sul, no entanto, mesmo esse país tão a sul do território africano, lida com alguma deficiência com os seus habitantes mais autóctones. Não seria opção tanto mais porque também se encontra demasiado longe das normais rotas de migração.

Migrar para outro país da Ásia? Tudo o resto ao redor da Síria está tão mal quando a Síria, ela própria, graças aos extremismos religiosos. A religião, sempre a religião no centro de todos os conflitos. Quando não é a maldita dependência de um ser imaginário e de uma doutrina, alegadamente escrita por ele, é o petróleo a arruinar as vidas das restantes populações. Quando parará tudo isto? Será que isso apenas acontecerá quando não existirem sírios para governar ou populações para sustentar? Será esse o plano global desses governantes que dizimam homens, mulheres e crianças como se de excedentes se tratassem?

É a insensibilidade dos que pensam que a sua existência neste planeta é mais importante que a das pessoas que os sustentam com os seus impostos. Nada é mais importante que a vida humana e nada é mais importante que a tentativa de a salvar.

Presto aqui homenagem aos bravos soldados, bombeiros, marinha e restantes forças que ajudam neste teatro de "guerra" diário. O trabalho que fazem alvitram-nos como seres humanos que ainda conseguimos ajudar outros seres humanos independentemente da sua cor, credo ou nível social. No entanto, o seu estado psicológico perante o que vêem todos os dias os seus olhos. Como chegarão a casa ou às suas tendas para descansar (na medida do possível) estes profissionais? Como poderão eles adormecer com estas horrendas imagens na sua cabeça e sabendo que retiraram do mar corpos de adultos e de crianças numa base diária? Como ficarão para o resto das suas vidas depois destes eventos tão traumáticos?

E os refugiados que perdem os seus familiares? Como conseguirão alguma vez refazer devidamente os cursos das suas vidas lembrando-se dos que ficaram para trás e dos que se perderam no mar e na guerra? Vidas instáveis que necessitarão de apoio psicológico contante e tratamentos psiquiátricos nos casos mais graves para evitar crises de instabilidade que poderão conduzir a outras mortes na sequência das depressões e desespero dos que cá ficaram.

Queria lá estar mas não posso. Não posso por razões de diversa ordem, incluíndo familiares. Sim também tenho de cuidar da própria família apesar de querer muito estar, poder abraçar e acolher estas pessoas. Não posso fazer isso. Estou impossibilitado por ordens superiores :( Alguém terá de assegurar essa diferença no desespero desta gente. Alguém que o faça por mim que estou aqui a morrer de vontade de ir.

Quem tiver possibilidade que se desloque para estas zonas para poderem apoiar as forças oficiais que acolhem diariamente esta desgraça.

P.S. >>> Consegui descobrir, entretanto, que este menino se chamava Aylan e que tinha apenas 3 anos. Morreu junto com os seus pais e o seu irmão Galip, a caminho da Europa...

https://www.facebook.com/solidaritywithgreece/photos/a.1681903648696778.1073741828.1681857028701440/1707154162838393/?type=1&fref=nf

Comentários

Joana Cardoso disse…
Triste, muito triste, o que se passa na Síria e no Mediterrâneo...De facto, pouco podemos fazer enquanto indivíduos... Talvez venha a ser possível adoptar uma das crianças refugiadas ou vir mesmo a ajudar uma família inteira. Penso que houve essa possibilidade nos casos de Timor e ex-Jugoslávia. De resto só podemos modificar a nossa vida e exigir energias renováveis e em que cada país possa ser autosuficiente para que não existam estas guerras...
Acho que as religiões existem com um bom princípio, que é o de fazer e promover o bem. O problema é que ao serem tão antigas foram escritas e se regem segundo princípios desactualizados, mas que continuam muito erradamente a ser levados à letra por interesseiros ou pobres de espírito... :(