Dois pesos, duas medidas...

Fotografar crianças e colocá-las no Facebook para serem admiradas por todo o mundo, não é permitido em Portugal. No entanto, é feito amiúde e com mais frequência do que a nossa imaginação pode abarcar. Dá-nos uma sensação de que as pessoas sabem que estão a fazer algo de errado mas só porque o podem fazer, fazem-no sem pensar e, o mais assustador, sem pensar nas consequências dessa atitude irracional.

Nos outros países não sei bem como se processa este tipo de limitação, mas em Portugal, apesar dos abusos que proliferam como cogumelos na floresta, as pessoas quase que exigem colocar fotos das suas crianças nas redes sociais, sejam elas quais forem e zangam-se se as proibirem de tal porque no seu entender, a censura já passou. Esquecem-se que esta censura tenta proteger as vidas dos mais novos e desgostos aos mais velhos. 

Bom, mas toda esta introdução serve para escrever sobre outro assunto: se alguém for um fotógrafo amador, profissional ou mesmo fortuito e se, por acaso, estiver nas proximidades de um campo de refugiados sírios ou de outra nacionalidade qualquer, pode fotografar o que se passa lá dentro (incluíndo crianças) e publicar o resultado das suas observações em jornais de grande tiragem ou mesmo em blogues ou newsletters de jornais, sem ninguém ser julgado pelo facto. Editores sem escrúpulos e apenas fidelizados ao consumismo e às tiragens/audiências, recebem de "braços abertos" essas fotos sem qualquer pudor e colocam-nas nas primeiras páginas das publicações de grande tiragem para seu gáudio pessoal e profissional.

Hipocrisia? Sim muita! Porque se pensa que uma criança num campo de refugiados está mais segura dos predadores do que uma criança no mundo "livre"? Porque é que os editores das grandes publicações aceitam fotos deste calibre mas não das nossas crianças? Pela sensação de diferentes realidades e culturas? Pela simpatia pelas vicissitudes da vida de refugiado ou mesmo pelas condições onde se encontram a viver? Pela etiqueta de "coitadinhos" que parece vir associada ao que se vê nas notícias? Pelo distanciamento pessoal que todos sentimos da nossa realidade para a realidade deles e que nos fornece uma legitimidade de fazer o que nos dá na "real gana" com as imagens que retiramos desses campos? Porque achamos que podemos expôr uma criança naquelas condições miseráveis só porque queremos relembrar o mundo que eles existem e que também podem ser futuros adultos?

Estas são questões que se me afiguraram pertinentes quando vi a foto de um petiz loiro de olhos azuis numa foto de um campo de refugiados sírio algures longe da Península Ibérica. Lá longe tudo é possível de fazer e de conseguir, mas aqui não. Lá longe, as barbaridades estão distantes e as imagens choque de crianças e adultos a morrer diariamente dentro e fora de água, chocam só um "bocadinho" a quem as vê a milhares de km de distância ou no conforto do seu lar. "Chocam" o suficiente para serem motivo de conversa durante umas horas e depois lá virá o Benfica, o Sporting ou o Porto manchando toda a "preocupação" que sentimos pelas atrocidades cometidas nos países de origem dos refugiados e que os empurra para fora do território que os viu nascer, desterrando-os para países que nada têm a ver com a sua cultura e com o seu modo de vida.

Gostava de saber se todas as organizações islâmicas que detêm o poder nesses territórios, possuem a consciência de que empurrar as populações para fora das suas áreas históricas e enviá-las para zonas do mundo onde se sentirão, eventualmente, tristes e desconfortáveis por não pertencerem ao mundo que os rodeia, irá diminuir o seu poder religioso ou mesmo social, ou seja, menos habitantes = menos fiéis para dominar e controlar.

A ignorância e revolta por não pertencer ao denominado "mundo-livre" (com sérias dúvidas acerca da tal liberdade do mundo onde vivo), gera frustração a quem está do lado de lá da barricada, imaginando que aqui deste lado é o paraíso em relação ao que se vê do outro lado e qualquer coisa é melhor que o que deixaram para trás, mas a realidade pode ser bastante diferente e cruel depois de passar a parte ilusória da chegada e do estabelecimento de esperanças de uma vida melhor. Há que relembrar que as pessoas fogem de uma guerra devastadora e de perseguições permanentes, no entanto, quando cá chegam têm de enfrentar a "guerra" da competição por trabalho e educação no nosso mundo.

Isto poderá ser avassalador para quem não está habituado ao peso da responsabilidade de aceitar e agir de acordo com todas as regras de convivência social dentro da Europa. Maus-hábitos todos os temos, mas maus-hábitos criados no Médio-Oriente transportados para a Europa ou Estados Unidos, sejam eles em crianças ou adultos, irá gerar mais tarde ou mais cedo, violência entre duas facções: a de esquerda que defendem o suporte a estas populações e a de direita que não suportam coitadinhos, pobrezinhos e muita coisa terminada em "inhos", vendo nisso um acréscimo de verbas que não gostam de partilhar com ninguém.

Digam-me o que pensam deste sério problema das crianças fotografadas nesses campos de refugiados e as suas caras e localização, espalhadas aos 4 ventos pelas mesmas pessoas que "batem no peito" defendendo as causas mais nobres do nosso país e do mundo.

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