Divagação...

Frequentemente gosto de divagar... gosto de deixar a mente vazia e pensar apenas num fundo branco sem princípio nem fim. A minha mente vai-se tornando alva como o tom desse fundo.

Penso que este exercício é próprio de quem tem de esvaziar a sua mente regularmente num intuito de renovar os seus conteúdos e desfazer-se de velhos hábitos em busca de uma constante actualização.

Quem não o faz, arrisca-se a entrar numa recorrência nada saudável e, mais tarde ou mais cedo, irá dar conta de que não consegue afastar-se ou mesmo quebrar ciclos viciosos que não o deixam progredir como ser humano e como profissional. O passado consegue ser um dos maiores pântanos em que as pessoas que não pensam e não se renovam, acabam por se meter.

Vem isto a propósito das minhas divagações. Esses pensamentos sem "eira nem beira" que me permitem gerar e perfilar emoções, pensamentos e até ideias, de modo a poder escrever sobre elas e resguardá-las para sempre. É um exercício que exige algum esforço mental.

Quando estava na escola, olhava pela janela e via a amálgama de habitações degradadas onde o meu pai persistia em viver com a sua família, eu divagava e imaginava como seria viver num andar, numa vivenda, numa casa bonita e de construção que permitisse convidar algum dos meus colegas para ver as parvas coisas que eu possuía.

Foi este tipo de divagações que me permitiam ainda sonhar com algo melhor para a minha vida, que me permitiam agregar forças para continuar na escola e fugir ao mau ambiente que persistia em existir à minha volta. Era uma época em que o futuro era desenhado a cada divagação e a cada contemplação.

Fui criança, fui jovem e fui adulto e agora estou com quase meio século de vida e com todos os meus sonhos de estabilização, estilhaçados pelas péssimas decisões que a necessidade de sobrevivência me levou a fazer, continuo a limpar a mente e a divagar. Este exercício de abstração da realidade que me permite fugir dos erros que cometi, transporta-me para outras paragens que nunca vi pessoalmente mas que reproduzo no cérebro como se fossem reais.

Queria tanto voltar aos momentos em que, através daquela janela na escola, via a minha casa e as casas dos meus vizinhos e recuperar o tempo que perdi em decisõesque viriam a moldar o meu futuro. Queria permitir-me ter mais coragem, a coragem que o meu pai sugava diariamente sempre que arranjava uma desculpa para nunca saírmos do miserável bairro onde nos tinha metido durane anos.

Divagar também é isto... reviver o passado continuamente sem conseguir ver a "porta" do perdão e do reconciliamento. Também é ir lá atrás na vida e ver onde errámos para não repetirmos esse erro com a próxima geração que já cresce numas condições totalmente diferentes das que eu tive. Ainda longe das ideais mas ainda assim a "anos-luz" das que me habituei a suportar durante os anos da minha formação como pessoa.

Perdoem-me esta divagação que para vocẽs pouco nexo fará mas que para mim é vital no processo de estabilização mental que recorrentemente tento fazer com o intuito de saber quem sou, de onde vim e para onde vou. A tentativa de conseguir integridade e objectivos de vida, exigem esta progressão pelos meandros da divagação... umas vezes de mente vazia e branca e outras a fervilhar de emoções.

Ainda assim, se nada disto existisse iria concerteza sentir-me amorfo, inútil e de uma existência fugaz e sem qualquer marca deixada neste planeta. Talvez fosse pior do que toda a situação que me rodeia actualmente. Vamos acreditar que tudo se resolve, o tempo tudo faz esvair e as pessoas esquecem quem fomos no passado e dão-nos a mão numa vontade genuína de nos tirar do tal pântano que falei no início deste artigo.

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