Amanhecer perigoso...

Antes de começar a escrever e a dissertar sobre algo que pretendo colocar cá fora há muito, muito tempo, devo referir que o título deste artigo não se refere ao amanhecer diário, mas sim ao amanhecer de uma nova vida, com todas as suas implicações sociais/culturais/profissionais.

Quando iniciei a minha vida, não foi num berço de ouro, nem de prata, nem de bronze, nem de coisa nenhuma a não ser palha (colchão) e um bocado de madeira (berço feito pelo meu pai). Muito pouca gente sabe que não provenho de famílias abastadas nem sequer de uma família com posses. Sou filho de uma doméstica e de uma autoridade (mas nada de posições de chefia).

Não temos terrenos ou casas para vender ou arrendar. Sempre vivemos do trabalho diário e do esforço que fazemos para enaltecer a honestidade e a alegria de por cá andarmos ainda.  Fizeram-se erros, tentativas de correcção desses erros, mais erros e tentativas diferentes para se corrigirem os erros antigos e os recentes e dessa embrulhada toda, saí eu  com todos os defeitos inerentes a tão grande batalha familiar.

Sofri na pele e sofri na personalidade todo o ambiente onde desenvolvi a minha infância e juventude. A solidão fazia parte diária da minha vida. Sem amigos e sem permissão para coisa nenhuma, desenvolvi uma personalidade rebelde e isolada que me tem protegido de muita coisa pela vida fora. Permitiu que desenvolvesse mundos internos para onde fugia sempre que a realidade me escapava ao controlo. Precisava de me sentar aos comandos de algo e fazer tudo da minha maneira para que corresse tudo bem.

Alguns chamam-me "control freak" e outros "workaholic" mas não percebem que ambas as definições são elogios para mim, pois provenho de um ambiente sem controlo e onde muitas vezes a racionalidade era deixada de parte para dar lugar a atitudes neuróticas e desajustadas. Uma coisa aprendi a muito custo: crescer sem amigos ou com amigos a prazo é uma das coisas a que nenhuma criança deve ser exposta durante a fase de desenvolvimento da sua personalidade.

Na busca por respostas pela enorme injustiça que me fizeram em Agosto de 1967, tenho encontrado muitas outras pessoas que pela sua história ou pela sua actualidade, se sentem igualmente injustiçadas e em busca de respostas iguais às minhas. Pessoas com passados violentos, com passados pouco "cor-de-rosa", com presentes negros, pesadelos muito actuais, pessoas com uma beleza e força interior do tamanho do universo, só pelo simples facto de terem passado provações durante a sua fase da melhor coisa que faz de nós o que somos: a personalidade.

Durante essa viagem tão acidentada, vou verificando que as melhores, mais confiáveis e mais experientes pessoas não são de todo as que nasceram em berço de ouro, nem as provenientes de famílias abastadas, nem as que têm passado pela vida protegidas de todos os males e contratempos... aliás essas são as pessoas que raramente possuem inteligência suficiente para perceber o que aqui andam a fazer, de tanto que fazem para se tentar distinguir das demais companhias dos seus pares.

Perdem-se a tentar igualar a vida das pessoas que conhecem no seu restricto círculo de amizades. Dispendem a sua vida a tentar sugar a vida dos outros só para se tentarem manter numa posição de poder ou de proiminência. Não são essas as pessoas que me interessa conhecer. São exactamente as que são oprimidas e que, tal como uma esponja, quando apertadas ou espremidas, dão aquilo que têm e o que não têm para tentar cair nas boas-graças dos que têm e não precisam ter mais para vierem desafogadamente.

Mas voltando ao tema do artigo, gostaria de alertar os pais que possuem filhos pequenos ou planeiam vir a ser pais, que ter um filho é a oportunidade de corrigir todas as nossas falhas e tentar que os vossos erros não sejam cometidos uma segunda vez, ou se forem, não sejam graves o suficiente para criar uma pessoa rancorosa e/ou vingativa pela vida fora. Um amanhecer de vida desestruturado, transforma-se numa tempestade que irá durar a vida inteira. Acreditem nas minhas palavras: eu sou o vivo exemplo disso.

E aqui, é o "diabo" mais uma vez a esconder-se nos detalhes: como se tornar uma pessoa interessante sem passar pelas agruras da vida? Como escrever livros sobre pedagogia, psicologia, sociologia, ciências humanas no geral, etc. sem vivenciar na "pele" o que é realmente pertencer à classe oprimida e largamente escravizada? Não é sequer lógico que uma pessoa escreva sobre essas coisas sem sequer as ter experimentado. É tal e qual como um economista que desenha a vida económica das pessoas sem sair do seu gabinete, sem ter contacto com o mundo real: nunca irá perceber realmente do que somos feitos e para que fomos feitos... e o dinheiro não é a resposta correcta a essas perguntas.

O título Amanhecer Perigoso parece o título de um filme de acção de 5ª categoria mas na realidade é algo que mais parece uma novela mexicana ou mesmo venezuelana com todo o seu enredo "cativante" e de "cortar os pulsos". É uma metáfora para a vida no seu início. É a alvorada de uma vida que pode ser tantas coisas e coisa nenhuma. Tanto pode ser a figura mais importante de um país como o vagabundo mais miserável que vive da caridade alheia. É todo um potencial de excelência ou de banditismo que se reune na nova vida que se inicia.

Devíamos meditar mais nestas questões de cada vez que se planeia uma nova vida ou que se faz uma nova vida mesmo sem ser planeada. A alteração do nosso meio circundante vai ser profunda e nada será como antes. Teremos nós a coragem para irmos nesse sentido? Acredito que muitos, não... de todo. Acredito que o medo e a desorientação instalam-se no momento do nascimento da nova vida e muitos desaparecem como apareceram na vida da mãe. Lamento que o façam pois estão a perder algo muito bonito e renovador. Algo que nos faz redimir de tantos erros e nos faz querer ser melhores pessoas só para que a nova vida nos veja como exemplo a seguir.

Não tive nada disto quando nasci e muito menos durante o meu crescimento. Por isso, sou uma manta de retalhos de personalidades e que fui apanhando durante o convívio com os milhares de pessoas que vão passando por mim durante a minha vida toda. Todos esses bocadinhos somados, completam-me e designam quem eu sou neste momento da vida e designar-me-ão no futuro.

Vamos pensar um pouco sobre este assunto e aceito opiniões na área dos comentários. Não se acanhem e falem comigo. Afinal, sou também um pedaço de cada um de vocês...

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