Inteligência exilada...

Gostava de escrever algo acerca da inteligência portuguesa (ou da falta dela) que se espalhou pelo mundo. Durante algumas das minhas viagens por alguns países, sempre senti, e vi, que não era bom acompanhar portugueses nos seus grupos de visita a algum sítio histórico ou mesmo conviver com emigrantes portugueses locais. Simplesmente não me entendo com a versão da língua local que falam, gastronomia, gostos pessoais e símbolos nacionais que usam amiúde.

Uma pessoa no exterior, e perante tais exemplos, sente-se constrangida em dizer que é português (eu pelo menos sinto-me), pois em todo o lado que nos é solicitada a identificação, as autoridades, pessoas nativas dos locais, caixas de supermercados, etc., olham-nos de soslaio e, uma ou outra, atira uma gracinha amarela para nos rebaixar, imaginando que todos os portugueses são iguais.

Lá tenho de lhes explicar que existem muitos níveis culturais dentro do nosso país, e geralmente, os que emigram para fazer do país anfitrião o seu país de acolhimento, são pessoas de baixo nível económico, sem estudos e sem um carisma que os leve a olhar para a nova realidade onde vão realizar a sua vida e lidar com ela de uma forma mais social e integradora.

Só para verem que a coisa está tramada lá por fora, em certa altura, fui a Maiorca, como todos os portugueses que podem adquirir uma viagem relativamente barata para ir uns dias de férias relaxantes. Na primeira noite em Magaluf (não estava alojado nesta zona, mas sim em Porto Petro), observei logo alguns desacatos na rua principal ao lado da discoteca BCM (acho que é assim que se chamava na altura). Um grupo de gente totalmente ébria, tentava destacar-se dos demais falando alto e tentando assediar todas as miúdas e graúdas, inglesas que podiam deitar a mão.

Depois de levarem alguns pares de estalos, murros e pontapés de pais, maridos e namorados das pessoas que estavam a assediar, voltaram-me para o meio da rua no momento em que eu ia a passar e um deles disse: "olha conheço-te... não és o fulano de tal que faz surf na Caparica? Ehhh pessoal, temos aqui um patrício que faz surf lá na Costa". E eu pensei: "não posso vir para tão longe e ainda assim encontrar gente conhecida... e totalmente bêbada. Para que vem esta gente para  estes sítios dar mau nome a Portugal?". Tratei de me raspar dali para fora antes que o ambiente azedasse mais do que o estado dos seus estômagos e intestinos.

E este é um vivo exemplo do que os jovens portugueses são no exterior, especialmente em zonas onde o álcool corre como se de água se tratasse. Outro exemplo típico é Loret Del Mar, destino obrigatório anual, para estudantes finalistas tanto do ensino secundário, como do ensino universitário.

Nunca em lado nenhum no exterior, como em Portugal, vi pessoas a entrevistar estrangeiros, perguntando-lhes se gostam do país onde estão e se eventualmente irão voltar (no caso, turistas). A mesquinhez do português é tal, que tem um enorme complexo de inferioridade para resolver tanto dentro-de-portas com fora delas. Têm de estar constantemente a perguntar a quem nos visita se gostam de cá estar ou se tencionam voltar ou incentivar alguém a visitar-nos.

Até nas televisões locais, ninguém se perde em reportagens sobre o país, tentando alvitrar o que de melhor tem uma França, uma Inglaterra, uma Itália, etc. Toda a gente já sabe que esses países são bonitos, ricos e a abarrotar de cultura e recreio.

Mas à primeira vista nem damos conta desse pormenor. Só quando mudamos para um canal de TV português, se consegue ver logo de imediato as diferenças gritantes: fado, paisagens do país em formato "pão-com-manteiga-para-estrangeiro-engolir", reportagens sobre gastronomia e costumes, mais entrevistas de rua a turistas incautos, fonte de publicidade gratuita, notícias do país filtradas para a comunidade de emigrantes, mais publicidade pró-Portugal, festinhas de província sem qualquer tipo de interesse a não ser para quem provém desses recantos escondidos.

Este tipo de vontade de agradar não é 100% sincera. É sim uma espécie de "cenoura na ponta de um cordel" para que os estrangeiros incautos gastem o máximo de dinheiro possível na nossa economia, sem que nenhum dos locais realmente se incomode se a pessoa pode ou não dispender esse dinheiro (nos outros países também existem pobres que uma vez por outra conseguem sair da sua realidade). Querem é "sacar-lhes" o mais possível e "que se lixem". Esta é a mentalidade do português na sua maioria dentro e fora do seu território nacional.

Nos transportes públicos, cafés, restaurantes, etc., das cidades que os receberam, são pessoas com uma falta de educação e de nível contundentes (e mais uma vez, estou a falar na generalidade), falando alto, cuspindo para o chão, fumando conforme e onde lhes apetece, fazendo barulho quando tudo deveria estar em silêncio, atirando lixo para a rua e mais uma série de outras atitudes que está habituado a efectuar no seu país e que pensa que quem mora nos países que os acolhem, estão dispostos a aturar.

Adicionalmente, são pessoas que se integram mal ou nunca se integram de todo, na cultura local, aprendendo devidamente a língua e preocupando-se com a descrição e com o efectuar amizades verdadeiras no seio das populações locais. Vivem em comunidade e isso muitas vezes traduz-se em transformar uma área que era um normal bairro habitacional, num "guetto" pela concentração de pessoas do mesmo nível social e que, obviamente, assustam os seus vizinhos com os seus hábitos estranhos.

Obviamente, que nem todos os emigrantes são de nível social ou profissional, inferiores. Esses, com um nível mais académico, conseguem "esconder", muitas vezes as suas origens para que possam ser aceites na sociedade que escolheram para iniciar ou reiniciar a sua vida privada e profissional. A esses, os outros, trataram de lhes fazer a vida negra, pela fama que o português ganha rapidamente no exterior, mas estes novos tipos de emigrantes sabem fazer face ao estigma gerado durante décadas pelas pessoas que deixaram o espaço territorial português, em direcção a todos os cantos e recantos deste planeta.

Temos pessoas emigradas de grande valor e que espalham diariamente outra imagem do que de melhor se faz "cá por casa", no entanto, toda essa inteligência esbarra sempre no mesmo estigma: ser português. Para muitos patrões ou instituições que irão acolher os novos trabalhadores, muito dificilmente serão considerados ao nível dos trabalhadores locais ou mesmo de outro tipo de emigrantes de outras regiões do mundo (numa visão generalista e abstracta, mais uma vez e de acordo com o que tenho presenciado nas minhas deslocações).

Digam-me o que pensam deste problema / solução e, se forem emigrantes, não sejam demasiado duros comigo pois eu só escrevo acerca do que presencio e do que me é dado a entender.

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