Violência doméstica...

Estou estarrecido, incomodado e enraivecido... apesar de ser proveniente de uma família em que a violência doméstica era profícua e, numa altura, praticamente diária, todos os dias vejo e revejo situações em que o pior do ser humano sobressai, atingindo por vezes a sua pior dimensão com a morte das companheiras, nunca pensei em assistir via sonora, a uma cena de pancadaria doméstica efectuada por um companheiro de uma amiga minha, sendo ele autoridade. O pior de tudo... foi à frente dos filhos pequenos e ela espera que eles consigam prosseguir a vida sem grandes mazelas.

Não posso ficar calado depois desta situação me passar pela frente por diversos motivos: sou humano, sou filho de um lar violento, já fui criança cheio de problemas devido a isso e agora sou um adulto, totalmente agarrado a um passado que de tão mau que foi, criou-me muitas cicatrizes que ainda doem, quando tocadas... e esta situação tocou-me profundamente. Ao ouvir as palavras desse animal que batia na minha amiga sem eu poder fazer nada, senti que existem mesmo homens que não valem nada e nem merecem o chão que pisam. São uma vergonha para o género masculino e não deveriam andam por cá.

Outra coisa que me incomodou, foi o silêncio da parte feminina durante todos os momentos violentos. Não chorava, não oferecia resistência e deixou-se bater como se de um monte de roupa se tratasse. De seguida, veio falar comigo e ainda me diz que merecia tudo o que lhe estava a acontecer e toda a realidade em que vivia, porque chamou a si toda esta violência, fazendo más escolhas na vida. Chamei-lhe parva por pensar assim. As escolhas são feitas no momento em que são feitas, mas são desfeitas quando as escolhas deixam de ser isso mesmo: escolhas e passam a estar sequestradas pelo marido ou companheiro.

Quero aqui deixar, igualmente, a intenção de expor de imediato esta situação às autoridades competentes e tentar, de algum modo, ajudar esta pobre mulher a sair desta situação dantesca assim como ajudar os filhos a recuperar do trauma de ver a mãe a ser espancada pelo pai. O silêncio e o "deixa andar" nunca é solução e por esse facto, repudio com a mais forte veemência, toda e qualquer tentativa dela anular ou suavizar as coisas que ouvi e senti estarem a ser feitas contra ela. Existem momentos em que mesmo que a razão esteja totalmente do lado do homem, nada justifica que levante sequer a mão para uma mulher em sinal de violência. Nesse momento, toda e qualquer razão que lhe assista, é totalmente perdida e transforma-se em crime público.

Quanto ao problema das crianças, é muito real e muito traumatizante, uma vez que me lembro perfeitamente do que passava com o meu pai quando ele chegava a casa e desatava a bater na minha mãe devido a estar meio atravessado pelo álcool. Lembro-me de a tentar defender juntamente com a minha irmã, mas acabar por levar também para não estar a defender a nossa progenitora. Logo sei o que estas crianças deverão estar a passar e o porquê, segundo a minha amiga, durante estes episódios de violência, estarem aos gritos para que o pai se cale e não os magoe mais na visão da discussão com a sua mãe.

Tive de escrever este texto de imediato para que as pessoas saibam que a violência doméstica está mais próxima do que julgamos e que ela mata, tanto física como psicologicamente, absorvendo neste desvario, toda a vida de um casal ou de cada um dos seus componentes e sua prole. É preciso denunciar ao mínimo sinal para que os agressores fiquem sinalizados e, mesmo que não condenados em prisão efectiva, pelo menos saibam que lhes basta mais um episódio de violência a mais e a pena deixa de ser suspensa para se tornar efectiva.

Agradeço ideias para que possamos ajudar esta minha amiga e a possamos libertar deste jugo opressor e silencioso. Obrigado pelo tempo que dedicaram a este texto.

Comentários

ana disse…
Eu própria fui vítima de violência doméstica, depois de 16 anos de relação com o homem que escolhi para a vida, para criar família, para ter filhos ... Pois foi, exactamente quando tivémos o nosso filho, que ele começou a ser agressivo ... agressivo físicamente, porque verbalmente, já era antes ... Vivi metade do tempo desta relação, casada oficialmente, de papel passado e pela igreja, que segundo ele era muito importante .. Eu que não fui criada por igreja nenhuma, sempre me ensinaram que se devia praticar o bem ... e depois de mais crescida e agora adulta, tenho a ideia que todas as igrejas ensinam que se deve praticar o bem ... Pois este senhor, que se dizia tão católico, agrediu-me fisicamente várias vezes .. Nunca fiquei quieta! Sempre fui ao hospital, algumas vezes tive de ir no INEM dada a gravidade da situação, fui sempre ao Instituto de Medicina Legal, que sempre fez os respectivos relatórios que comprovavam a agressão ... Fiz sempre queixa na PSP ... Os cass seguiram para Tribunal e o Ministério Público junto 7 queixas crime no mesmo processo. Em algumas situações tinha testemunhas e arrolei-as no processo. A minha mãe também foi agredida pelo mesmo senhor e passou pelos mesmos procedimentos que eu ...Até que chegou o dia do julgamento ... Levei uma advogada oficiosa, que me fez acreditar que não se interessou como se eu estivesse a pagar como particular ... E ouvi da Delegada do Ministério Público, aquilo que pensava que uma Delegada do Ministério Público pudesse dizer a alguém: Disse a senhora que se tinha perdido uma grande artista em Portugal ... e que a filha não lhe ficava atrás ... não fui capaz de ouvir mais (imaginei que de repente não me controlava e respondia à Delegada do Ministério Público e pensei que ainda fosse presa), peguei na minha mala e casaco e saí porta fora da sala de audiências ... mal passei a porta, os meus olhos pareciam torneiras: as lágrimas corriam bem grossas e sem parar ... chorava convulsivamente com a revolta que sentia por ver que a minha mãe tinha sido chamada de mentirosa ... contou-me depois a minha mãe que a mesma Delegada chamou também mentirosas a todas as testemunhas e o agressor saíu ilibado! Saíu de cabeça erguida e a sorrir, com mais força para agredir ... O agressor é advogado, não sei se isso contou ... e o pai tem muito dinheiro, também não sei se isso contou ... o que sei é que não é normal ele ter agredido a mulher e sogra, muitas vezes à frente do nosso filho de apenas um ano de idade ... Tenho ajudado muitas mulheres vítimas de agressão, contribuo com donativos para a APAV todos os meses, e aconselho sobretudo a procurarem no facebook a Paula Patuxa Lopes e a pagina dela Sem Preconceito, pois ela é uma lutadora de várias causas, entre elas a violência doméstica e tem um livro escrito sobre o assunto, muito interessante, contando a sua própria experiência que se chama Sem Preconceito. Espero ter podido ajudar um pouco ... Estou ao dispôr para poder ajudar mais ...
O meu profundo respeito pelo exemplo da Ana. Quem precisar de ajuda nesta ou noutras questões, aconselho-a vivamente. É uma fantástica amiga.