Simplicidades estratificadas...

Em conversa com uma amiga muito querida, ela mencionou que provinha de uma família bem e que se considerava muito simples e sem grandes pedantices, porque tinha sido criada como alguém que olhava para essas atitudes das pessoas bem, como efeitos do "novo-riquismo" e do isolamento social (não do estrato social de onde provêm mas sim dos estratos sociais inferiores).

Em sentido inverso estava eu a referir que provenho de uma família humilde e que a minha sensibilidade e conceito de "simplicidade" era totalmente o oposto ao que ela me estava a descrever. O meu entendimento desta palavra tem a ver com humildade e despojamento de todo o tipo de materialismo, excepto aquele que é necessário para a sobrevivência humana. Não chegámos a um meio termo pois os nossos mundos são demasaido desnivelados para permitir tal veleidade, mas uma coisa saltou-me à ideia: a complexidade da simplicidade.

Uma pessoa para ser realmente simples, teria de renunciar a tanta coisa que acumulou durante anos da sua vida (e não estou a falar de bens materiais apenas). Teria de abdicar de estatutos sociais, ideologias, atitudes prepotentes e pedantes, nomes de família, a própria família, os "amigos" do seu nível social e reconstruir toda a sua estrutura de vida despojada dessas mordomias e referências pelas quais se teria orientado toda a sua vida até esse preciso momento da decisão. Teria de recomeçar do 0 perdendo toda a experiência de vida. Se recorresse a alguma dos conhecimentos anteriores, já não seria válido e deveria retirar-se imediata e graciosamente dessa tentativa de simplificar a sua vida.

Por seu turno, as pessoas, que como eu viveram na ânsia de ter algo mais do que a simplicidade de vida em que cresceram durante anos, ascenderiam a um estatuto que lhes permitisse, pelo menos, sobreviver com dignidade e sem recorrer a expedientes legais e/ou ilegais ou de recurso para manter a pouca estabilidade de vida que se conseguiu até aí.

A relativização das necessidades para estabelecer um nível de "simplicidade" são demasiado vastas para se poder fazer "tábua-rasa" de tal conceito. Os pontos de partida são demasiado afastados e desnivelados para que se possa acreditar numa verdadeira vontade de simplicidade por parte dos ostentadores de nomes e apelidos sonantes e, em "contra-corrente", existem as pessoas que querem poder pensar desse modo para prosseguir com a sua vida sem se preocuparem com questões primordiais do dia-a-dia, como comida e alojamento.

O próprio conceito de "simplicidade" demonstra que a pessoa que pretende atingir ou manter-se a esse nível, deverá possuir, acima de tudo, um nível de humildade e de submissão que não lhe permita sequer pensar em transpôr certas barreiras e deixar-se abusar pelos poderes dominantes. Será uma pessoa obediente, totalmente seguidora e sem qualquer ambição pessoal. Sabemos à partida que o ser humano tem sempre sonhos e objectivos a cumprir e que a "simplicidade" não é de todo compatível com a génese humana, a não ser que as pessoas sofram de algum tipo de doença cerebral que as impeça de sonhar com uma vida melhor ou com um estatuto social diferente. Só desse modo seria compreensível a sua permanência num estadio de evolução que não progredisse para lado nenhum.

Pelo que me foi dado a entender e saber durante o tempo que trabalhei com deficientes motores e cerebrais, até mesmo essas pessoas possuem vontade de ser mais e de melhorar as suas capacidades físicas e motoras (mesmo que, claramente, jamais o conseguirão). Por isso, esta questão de se ser uma pessoa simples tem muito mais do que se pode alcançar de imediato. Daria uma bela discussão num programa sobre psicologia social e talvez dessa discussão se chegasse a alguma conclusão, mas... duvido muito que assim fosse.

Digam-me o que pensam deste tema e desta dualidade de análises deste conceito que deveria ser de todos mas que nem todos ambicionam direccionar-se nesse sentido. Muitos até dirão dessas pessoas: querem ser mesmo simples? Vão vier para as cavernas da Pré-História e vistam-se com peles de animais e tentem redescobrir o fogo. Mesmo assim, a simplicidade já era algo que não existiria... por necessidade de sobrevivência. Já lá dizia o sábio Leonardo Da Vinci: "A simplicidade é a última das sofisticações"... e não é que já tinha razão naquele tempo?? Raio do homem até nisto acertou...

Comentários

ana disse…
No meu entender, uma menina (ou uma pessoa) de bem, é uma pessoa criada numa família de pessoas educadas, que sabem estar, que sabem ser, independentemente de terem condições financeiras mais elevadas. Já dizia Bourdieu, que as famílias que tinham capital cultural, é que tinham mais facilidade em que os seus descendentes conseguissem uma mobilidade social (ascendendo de classe social). E tal como para este grande sociólogo, para mim, uma menina bem, tem em casa pais com mais cultura, com mais livros, que lhes permite absorverem esta cultura. Há sempre excepções ... Há filhos de famílias com todas estas condições, que não as aproveitam e até poderão ser grandes delinquentes (mas essa ideia dava para desenvolver outro pensamento) ..., mas de um modo geral uma menina que é criada numa família educada, respeitadora, com valores, também terá essas características. Mas isto não implica que essa menina não possa ser simples! Muitas vezes bem mais simples que outras meninas (ou pessoas) que nasceram em famílias com menos educação, com menos respeito pelo próximo, como menos valores, sejam eles quais forem. Ser simples, é saber dar valor a uma pessoa apenas porque é uma pessoa e não porque essa pessoa tem isto ou aquilo (falo de bens materiais), ser isto ou aquilo (falo de títulos, cargos, etc.), é saber estar sem impôr a sua presença, sem se armar em importante, é apreciar estar numa casa de campo com mais de cem anos, sem obras, independentemente de ter sido habituada a ir para hóteis de luxo. Ser simples, é ser genuína, expontânea e saber dar valor ao que se tem, mesmo que não se tenha tudo o que se gostaria de ter. Ser simples, é dar o valor aos outros independentemente de quem são, de como nasceram, de como foram criados. Contudo, não se confunda esta simplicidade, com permitir que não a respeitem! Porque infelizmente há quem faça essa tremenda confusão. Fica aqui o testemunho duma menina bem, com nome de família, que se considera simples.
Obrigado Ana, pelo extenso e elucidativo comentário. Realmente os "meninos e meninas bem" podem gerar grandes delinquentes por excesso de educação e o desejo de ir contra o sistema instituído na família. Pela "prisão" mental a que estão permanentemente sujeitos. Conheço casos desses e cujos filhos se refugiaram na droga (consumindo e traficando para ter dinheiro para o consumo), vendendo o seu corpo para ter acesso a roupas e acessórios de marca, etc. É uma enorme tristeza para os progenitores e para quem os vê a degradarem-se desse modo por algo tão materialista.