Amarguras...

Dizem que sou uma pessoa muito revoltada, muito amargurada, muito desviada dos padrões sociais e muito ditadora em algumas opiniões e atitudes. O que não me perguntam é a razão para eu ser deste modo. Porque eu não nasci assim. Fui sendo formado deste modo ao longo das minhas actuais 48 Primaveras. Tudo o que tenho, e acima de tudo, aquilo que não tenho, foi fruto dos vários condicionalismos que fui enfrentando durante a vida. Mas isso já eu expliquei sobejamente em artigos anteriores.

Muitas vezes fecho-me num lugar escuro sem barulho e ouço a minha mente. Os sons que ecoam pelas sinapses do meu cérebro, preenchem-no nesses momentos. Todos os instantes que passaram céleres ou mais pachorrentos, enfileiram-se esperando a sua vez para serem colocados numa escrita que poderia ser melhor mas também sofre do mesmo mal de quem a escreve: falta de formação.

Porém, a minha escrita é o meu único refúgio para os tempos que atravesso. Nesta escrita deficiente, mal ou bem, as minas ideias fluem e ficam visíveis para quem as quiser ler. Não pretendo mais tomar medicamentos que me toldam as ideias e me diminuem a racionalidade. Preciso de ser eu próprio e não um fantoche criado e mantido pelas ideologias de controlo de personalidade. Preciso de iluminar e ser ilumidado por ideias, por conceitos que me escaparam durante os últimos 10 anos da minha vida.

Preciso de renovar a minha vida. Sentir-me feliz novamente, mas... o maldito dinheiro volta a estar curto para que possa dar asas aos planos que fui adiando durante todo este tempo. Enquanto isso, vou escrevendo... escrevendo... esvaziando o meu cérebro do "tsunami" de ideias que teima em nunca parar de fluir. De onde surge tanta ideia? Como sou capaz de processar e reter tanta coisa que me entra no sistema. Gostava de conseguir ter o poder para esquecer muita coisa na minha mente, mas também sou extremamente incompetente nesse assunto, assim como em muitos outros.

Ainda há bocado discuti com a mãe do meu filho. Eu não queria discutir mas ando tão cansado, saturado de tudo, esmagado com as obrigações fiscais, sociais, profissionais e pessoais, que só o facto de não poder "explodir" ou ter de escolher as palavras e os momentos antes de "explodir", já me causa stress. Stress esse que vai acumulando em larga escala e como tal, um dia despoleta uma reacção igual às que descrevo no início deste artigo... e depois sou apelidado de tudo o que descrevo. Um homem vencido pela vida com muita coisa a perder e com tantos outros problemas para resolver.

Muitas vezes acho que não fui talhado para a vida que estou a levar. Esta vida de pai não se coaduna com o que sinto como homem. Ser pai devia ser algo totalmente diferente. Somos esmagados pelas necessidades de educação dos mais novos e isso condiciona imediatamente outros tipos de opções que pomos imediatamente em pausa até que "melhores dias venham". O adiar constante de planos, a tentativa de ajuste à realidade de pai, a pressão de trabalhar numa profissão nómada tecnológica e as adversidades familiares que enfrento numa base diária, não me deixam muita margem para querer voltar para casa numa base dária.

O voltar para casa que deveria ser uma alegria e um objectivo maior, é para mim uma angústia, um arrastamento e uma amargura que dito assim, ninguém acredita. Quando se aproxima o fim do dia de trabalho é quando esta amargura começa a criar novo fôlego. O que é facto é que sem dinheiro para me libertar disto, vivo amarrado a raízes que eu próprio criei e outras onde me deixei envolver, parvamente. Sinto que preciso de ajuda, preciso de alguém que me entenda, que ria comigo das minhas piadas ou das minhas parvoíces e não me condicione a toda a hora com uma cara sizuda e acusatória. Isto destrói o meu lado divertido, bom e generoso, reduzindo-me à condição de máquina providenciadora de estabilidade do lar. Detesto esse sentimento de dependência.

Onde pára a liberdade que deveria possuir? Onde se situa a saída desta vida miserável e sem qualquer sentido? Por favor digam-me... preciso de saltar fora disto, mesmo que tudo esteja em andamento. Compreendo que eu seja apenas mais um no meio de uma vastidão de pais ou mães que estejam na mesma situação, mas com o mal dos outros posso eu bem. Neste meu egoísmo, por vezes ilógico, consigo vislumbrar as razões pelas quais me sinto deste modo: o desejo de ser algo mais que não fui e sei que poderia ser numa escala suficiente para mudar o mundo de algumas pessoas... para melhor.

Nesta condição, debilitada psicologicamente, reconheço que deveria ser mais calmo, mais compenetrado, menos impulsivo e mais atencioso com as pessoas. No entanto, muitas dessas pessoas também deveriam ser menos sarcásticas, irónicas e oportunistas para comigo. As minhas reacções negativas são o reflexo que utilizo para me defender das agressões sociais a que todos, sem excepção, estamos expostos.

Desta vez não vou solicitar opiniões porque este assunto requer uma análise mais incisiva sobre esta minha existênia neste plano transcendental.

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