Anti-Surf...

O título acima, desconhecendo o meu historial do desporto referido, poderia parecer que seria um artigo de opinião escrito por uma pessoa ressabiada e sem noção absolutamente nenhuma do que é esta actividade física aquática. Gostaria, como reforço para memória futura, que entendessem estas frases apenas como uma mera descarga de consciência numa altura em que vejo o quanto este belo desporto se degenera.

Feita a resenha inicial, correspondente à auto-flagelação da minha mente, vou passar a explicar o porquê de tão ambíguas e ingratas palavras: bom. tudo isto tem a ver com a quantidade de surfistas de todas as idades que inundaram a água desde que me lembro até a actualidade.

Eles saem de dentro de carros de todos os tamanhos, feitios e cores. Eles vêem de todas as formas e dimensões. Eles vêem mal vestidos, andrajosos, deturpados naqueles cérebros de noites mal dormidas... enfim eles só querem chegar à praia para se pôrem a olhar para o mar como profundos conhecedores do que se passa lá "dentro". Imaginam que lá por surfarem há 2 ou 3 dias, já conseguem prever e analisar todo o tipo de mares e de ventos. Pensam que sabem tudo sobre como reagir perante espécies marinhas que aparecem de repente no seu meio natural.

Os putos novos devastam os "lineups". Olhos em forma de "arma", constantemente apontados para os teus com o intuito de te fazer desistir e deixar as ondas apenas para eles. São pequenos predadores maritimos em potencial ou em plena "produção". Salvo um ou outro que tem o puritanismo deste lindo desporto no sangue, tudo o resto é digno de pena e desilusão. A responsabilidade deste tipo de atitude tem a ver com, obviamente, os pais. Se os progenitores forem, ou foram, de algum modo ligados ao mundo do surf, é óbvio que as suas crianças virão mais tarde ou mais cedo, a adquirir este "bichinho" e continuar a tradição familiar.

Até aqui nada de mal se umas gerações se substituíssem ou convivessem dentro de água de uma maneira pacífica e respeitosa. Mas o que que se passa na realidade é que isso não existe. As escolas de surf despejam (despejar é a palavra correcta para definir o que se passa nesta vertente) dezenas de crianças, adolescentes e até mesmo adultos curiosos, para onde as ondas quebram sem lhes providenciar o mínimo de informações sobre o respeito que se deve ter por quem é mais velho e se encontra há mais anos no desporto.

Para além disso, a ânsia de ganhar dinheiro é tão forte e controla tudo que, na maior parte das vezes, os donos das escolas pecam por falta de educação eles próprios sem absorverem opiniões vindas de outras vertentes ou mesmo de pessoas que cresceram no mar, mesmo que sem uma prancha, pondo em perigo real, pessoas e propriedade. Para além disto, os "alunos" saem dessas escolas sem o mínimo de conhecimento de ventos, marés, dinâmica do meio aquático marítimo, segurança, primeiros-socorros e, obviamente, respeito, como já referi.

A juntar a tudo isto, temos também as lojas de surf que incentivam, com o seu negócio, toda esta aura de "super-homens" aquáticos e que ajudam a retirar o misticismo de como "cavalgar uma onda" na perfeição, do princípio ao fim. Sendo estas lojas, elas próprias, as possuidoras de escolas de surf, unem, deste modo, o nefasto ao que é defunto neste desporto, muitas vezes: a sensatez de uma atitude e de uma resposta ou mesmo de um conselho

O surf, em certas zonas do país ou mesmo do mundo, já deixou de ser uma actividade de lazer ou mesmo divertida. A insuflação de egos e o despejar de frustrações no mar, substituiu o prazer de se deslizar numa onda, para muitas pessoas. O modo como se comportam no "lineup", denota que, tal como nas suas vidas, sentem que o desporto é uma extensão da atitude que possuem num ambiente profissional. Ali naquele ambiente inóspito (sim porque nós não somos peixes por mais que queiramos parecer), devemos comportar-nos com respeito para com o próximo e manter um ambiente de entreajuda constante.

Um ambiente salutar de respeito e de convivência alegre para que as relações que ali se estabelecerem, possam perdurar para a vida e não acabar na beira da praia com tudo ao soco e ao pontapé, como começa a ser normal desde há uns anos a esta parte. Todos gostamos de fazer deslocar o nosso corpo em cima de água com a ajuda de uma prancha mas revanchismos fazem parte de outros tipo de "desportos" que não o nosso.

Quando comecei a surfar, tínhamos apenas um fato, um "chop", "wax", uma prancha e o mar como recreio... agora isso já não chega para se surfar. É preciso possuir toda uma panóplia de "gadgets" para recordar no futuro, tudo o que conseguirmos fazer dentro e fora de água, no presente. Também isto constitui uma armadilha económica que retira e enfraquece a nossa capacidade de recordar o passado ou mesmo, como alguns gostam de dizer, a nossa capacidade de sermos mentirosos compulsivos.

Esta faceta de mentirosos-compulsivos, provém da classificação a que somos votados juntamente com outros praticantes de "desportos" enganadores. Entre eles estão os pescadores, os surfistas, os caçadores e outros "artistas" que adoram exagerar nas suas façanhas só para que gostem mais deles ou ganhem mais respeito dos seus pares. É algo nato e que deve ser combatido com prioridade absoluta. Se somos uma porcaria não há como "tapar o sol com uma peneira". Há sim que admitir os erros, corrigí-los e seguir com a nossa vida sem prejudicar as demais entidades que por cá andam. 

Digam-me o que pensam sobre este assunto mesmo que nada tenham a ver com ele. Opinem sobre se tinham a consciência do que se passava nesta área do desporto ou se pensavam que isto era um verdadeiro "mar de rosas". Venham de lá essas perspectivas de fora deste desporto. Serão muito bem-vindas.

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