Mudar de Casa...


Desta vez a polémica não é pública mas sim algo mais privado... vou mudar de casa. Ao fim de 26 anos (mais coisa menos coisa) no espaço que ainda habito, vou mudar toda a logística da minha existência para outra área que não a minha. Pensava que jamais saíría desta casa enquanto estivesse vivo. A última vez que o fiz foi para mudar definitivamente do espaço que os meus pais possuíam nesta mesma rua, para esta casa.

Casa que quando cá entrei pela primeira vez, era o meu palácio, apesar de estar muito podre, o chão cair no andar de baixo e as infiltrações serem mais que muitas, era o meu querido espaço, o meu pequeno universo onde me sentia protegido e pelo qual admirava o mundo dos outros lá fora.

Depois de anos de obras e de ajustamentos, tudo ficou estável e muito mais habitável. Deste nível, via uma grande extensão de rio (desde Cacilhas até à Cova do Vapor, antes da construção da urbanização à minha esquerda), os barcos pequenos e grandes que passavam numa base diária, os aviões de diversas empresas, as tempestades na margem sul (que cortavam o céu com clarões como se fosse dia), tinha um óptimo espaço para estacionar, um parque de jogos, supermercados, restaurantes e escolas sem necessitar de pegar no carro (incluíndo a minha ex-escola primária e a Escola Secundária Marquês de Pombal, ainda hoje uma das, senão a maior da Península Ibérica)... e agora não vou ter grande parte destas coisas, porque... vou mudar de casa.

E mudo por diversas razões também. Todas elas muito válidas mas que me deixam um amargo de boca e uma saudade sem igual da rua que me viu crescer e onde ficarei ligado para todo o sempre. Essa rua que uniu e desuniu pessoas, que destruiu famílias e destroçou egos. Uma rua mágica. Uma rua diabólica. Uma rua cheia de memórias, sonhos e pesadelos. Era a minha rua. Vou deixá-la para trás. Vou abandonar o meu ninho e viver uma nova aventura, mas nunca como a que me permitiu chegar aqui. Já tenho saudades dela e nos momentos finais, sorvo todos os momentos como se fossem os últimos da minha existência neste planeta. Todos os pormenores significam muito mais do até agora. Todos os detalhes e pessoas, de repente, são notadas de maneira diferente e com mais saudade no olhar.

A luz e o brilho da rua são maravilhosos. A beleza desta rua, resplandece e atira-me para outras épocas em que me fartava de correr, de saltar, de jogar à bola, de andar de bicicleta e de skate em toda a sua extensão. Desta rua saí para conhecer mundo mas a ela voltei sempre. Amores e tristezas, desenvolveram-se aqui. Tive amigos do coração e fiquei sózinho sem ninguém para brincar, várias vezes. Toda a vida neste espaço foi uma "montanha-russa" de emoções, umas vezes alegres e outras, profundamente, tristes. Por muitas razões devo sair mas por tantas outras deveria ficar.

Agora com um filho, o espaço que habito deixa muito a desejar e não é de todo benéfico para ele, relativamente à sua saúde. Serviu para ele crescer até perto dos 3 anos mas está na hora de sair, para que seja mais fácil a sua presença diária na escola e nos seus afazeres sociais. Precisa de mais espaço e mais privacidade, que não existe nesta casa. Para o pequeno rebento, vai ser como um novo recomeço e a pé, tem acesso a todas as dependências do seu colégio. O resto logo se pensa e se articula.

No novo espaço, não vou ter a mesma vista que tinha neste, não vou ver barcos, aviões ou a grande extensão de água a que chamam Tejo. É um espaço menos poético e menos etéreo, mas é prático e confortável. Espero que também com menos barulho da vizinhança e mais calmo, mas numa coisa vou adivinhar algumas lutas acirradas: o estacionamento. Estava mal habituado. Estacionamento à porta ou muito perto dela, faziam da casa antiga, um luxo pouco usual nos dias que correm nas grandes cidades como Lisboa e ainda mais, numa zona sujeita a grande pressão urbanística como é o sítio onde ainda moro. Era um pequeno oásis de perfeição, dentro do reboliço urbanístico e da loucura dos pinos nos passeios (presente envenenado do sr. presidente da junta).

Estou triste, muito triste com a mudança. Um pedaço de mim fica para trás e um enorme banco de nevoeiro fica na minha frente. O conforto da certeza do que se possui, sente-se cada vez mais distante e a instabilidade da incerteza jaz diante do meu caminho. Afiguram-se mais obras, mais dinheiro para gastar, poucas fontes de rendimento e incertas. Tudo o que já tinha sido feito, não pode ser desfeito e há que começar tudo do 0 novamente. Sinto-me cansado e desmotivado e com a idade que possuo, recomeçar já não deveria estar nos meus objectivos. Só quero conforto e paz. Paz essa que parece iludir-me a cada passo que dou e a cada tentativa de estabilização.

Espero que esta seja a última vez que me mudo, pois quero envelhecer com marcos de distância, marcos de sensatez e marcos de referência de vida. Os que tinha agora estavam óptimos, mas os últimos problemas estruturais desta casa, ditaram e forçaram a minha saída. Continuo a gostar muito deste espaço por tudo o que ele me deu e por tudo o que ele me permitiu ter e ver, mas é chegada a hora de... mudar de casa.

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