O Pobre de Direita...

Por estes dias, uma deputada que admiro, fez sair com um simples discurso, todo o esplendor de um tipo de português que observo há bastante tempo, o "pobre de direita".

O pobre de direita é um espécie de ser humano minimalista, tipo homem IKEA.

O pobre de direita reduz tudo a ideias simples que aprende uma vez, nunca coloca em causa e passa aos descendentes não como aprendizagem, mas como moral.

O pobre de direita reduz a economia às contas de mercearia lá de casa e é tudo o que ele precisa de saber. O pobre de direita recebe um salário baixo e usa o ditado "No poupar é que está o ganho", acha que os países são governados assim e por isso aplaude discursos de direita sobre a necessidade de investimento feitos por estrangeiros que pagarão menos impostos pelos seus lucros do que ele pelo seu trabalho.

O pobre de direita reduz a classe social a três tipos: ele próprio que por menos que ganhe é de classe média porque trabalha; os pobres que para o serem verdadeiramente têm de se vestir como pobres, cheirar mal e serem sempre agradecidos na altura da esmola que lhes dá por vezes para se sentir melhor consigo próprio; Os ricos, ou de "classe alta" que são sempre os que vestem gravata e principalmente os que ele considera como seus superiores, nestes incluem-se como é óbvio sempre o seu chefe, ou alguém que tenha terminado a licenciatura a quem ele trata sempre por doutor ou para ser exacto "o xotôr".

O pobre de direita é moderadamente fascista, moderadamente homofóbico e moderadamente racista. Ouviu falar a outros sobre a disciplina de Salazar - sem nada saber de história contemporânea - e fala com o seu taxista favorito acerca disso sempre que a CMTV faz uma reportagem sobre um homicídio qualquer, chama aos gays "paneleiros" e tem sonhos eróticos com partilhar a cama com duas lésbicas, fala bem a alguns negros de confiança lá do bairro, mas olha em volta quando diz uma piada sobre pretos.

O pobre de direita jamais em caso algum admite ser fascista, racista ou homofóbico em ocasiões formais ou quando discute política com alguém que tenha lido um livro a mais do que ele. Por vezes o pobre de direita até apresenta como prova deste seu estado, o facto de ter um amigo preto ou dizer que nada tem contra "paneleiros" desde que não o chateiem.

O pobre de direita é totalmente islamofóbico apesar de nada saber sobre o Islão e achar que Muhammad Ali foi apenas a alcunha fofinha do "maior de todos os tempos.

O pobre de direita acha que esta cena da violência doméstica está fora de moda e não gosta de falar disso quando afecta os amigos do café, mas repete e segue o que ouviu do seu pai "Entre marido e mulher ninguém mete a colher, e é bom que lá em casa ela se porte bem senão é estalada naquela tromba que vai de pinote, até porque lá em casa só um é que deve "vestir as calças". Isto apesar da esposa do pobre de direita não vestir saias porque o pobre de direita acha que saias acima do joelho são para as putas.

O pobre de direita reduz a sua formação política a quatro comentadores de eleição: Medina Carreira e Camilo Lourenço para a economia, Marinho e Pinto para a justiça e Pedro Arroja para a crítica social. A CMTV e o seu canal de eleição, apesar de jurar a pés juntos que vê a RTP2 (isto apesar de achar que o Acontece ainda está no ar).

O pobre de direita costumava ver a SportTV mas desde que descobriu a internet vê os jogos do seu clube com um atraso de 5 minutos só para não pagar adesão "aqueles chulos", compra DVD's ao cigano que os vende lá no café do bairro mas acha piada ao sapo na porta, cujo significado não percebe lá muito bem e acha que se devia apoiar mais a cultura deste país.

O pobre de direita descobriu o Facebook com uns anos de atraso, mas desde que o tem, passa grande parte do tempo a publicar frases da "Chiado Editora" de livros que nunca leu ou irá ler, e fazer o milésimo repost acerca da cantina da Assembleia da República onde ele acha que se come mesmo faisão todos os dias (apesar de ele não saber bem o que é faisão), dos salários das estrelas da RTP que ele acha que são mesmo aqueles, mas acima de tudo dos salários e pensões dos políticos que ele compara com a Suécia por viu um vídeo.

O pobre de direita adora vídeos porque tornam as coisas mais simples de perceber. É claro que se o pobre de direita vir um político famoso em campanha com as câmaras atrás ou uma estrela de televisão em gravação logo atravessa a rua para cumprimentar "o xotôr" ou a menina que "gosta muito de ver na televisão".

O pobre de direita tem uma biblioteca que lhe ocupa uma prateleira lá em casa constituída por livros cuidadosamente escolhidos para coincidir com a decoração da sala e onde se deve incluir sempre uma edição do sagrado triunvirato literário de qualidade, José Rodrigues dos Santos, Pedro Chagas Freitas e, é claro, uma cópia de "Equador" do Miguel Sousa Tavares. Alguém ofereceu no Natal ao pobre de direita um livro do Saramago, mas ele nunca o leu.

O pobre de direita diz-se católico e conservador como gente de bem, mas quase nunca põe os pés numa igreja, não sabe recitar três dos dez mandamentos e "dava uma trancada" na vizinha do terceiro esquerdo que também é casada mas anda a pedi-las e toda a gente do bairro sabe disso.

O pobre de direita por vezes vive num bairro social mas é totalmente contra o RSI, que toda a gente sabe é um subsidio que os esquerdalhos inventaram para que os ciganos votassem neles.

O pobre de direita quando era novo era um "ganda maluco", uma vez até fumou um charro e foi ao Porto ver um jogo com a claque do seu clube.

O pobre de direita fica mais furioso que o seu clube tenha perdido o campeonato nacional de futebol do que o seu filho tenha chumbado o ano.

O pobre de direita todos os anos tem dificuldades em comprar os manuais escolares para o seu filho único poder estudar, mas apoia a luta dos pobres professores dos colégios privados que vão ficar sem emprego por causa de comunas como o Mário Nogueira que nunca fez nada na vida, porque quem lhe disse foi um primo da mulher que conhece um vizinho dele.

O pobre de direita tem um problema com a actividade de lenocínio porque acha que todo o país a pratica, menos ele. Assim o pobre de direita acha que os funcionários públicos são chulos; os professores são chulos; os médicos são chulos; os enfermeiros são chulos; os advogados são chulos; os políticos são chulos; os polícias são chulos. E o pobre de direita acha isso quando eles estão em protesto ou quando fazem greve. Sim porque o pobre de direita odeia acima de tudo, gajos que fazem greve. Apesar de odiar greves o pobre de direita reclama com os aumentos baixos ou inexistentes que o seu patrão lhe dá. Patrão que odeia e a quem também chama chulo, mas que não se atreve a começar o dia de trabalho sem passar pelo seu escritório e cumprimentar.

O pobre de direita jamais seria sindicalizado até porque primeiro o patrão não deixa e segundo toda a gente sabe que o dinheiro dos sindicatos vai todo para a "Festa do Avante". É claro que quando o pobre de direita é despedido porque a fábrica encerrou vai a correr ao sindicato mais próximo pagar seis quotas porque não tem dinheiro para o advogado.

O pobre de direita tem uma paixão por demagogos, ou seja "gente que fala a língua cá da nossa gente". Entre os heróis do pobre de direita, contam-se Vale e Azevedo; Bruno de Carvalho; Pinto da Costa e Marinho e Pinto. O pobre de direita chegou até a ter uma paixão secreta por Sócrates mas que agora foi publicamente substituída pelo Juiz Carlos Alexandre.

O pobre de direita adora chicos espertos - gente que se safa - mas também vigilantes e figuras autoritárias. O pobre de direita está sempre a defender a morte dos violadores e ladrões afirmando que se que se fosse com ele estariam todos mortos ou "capados", isto apesar de evitar sempre "confusões" e achar que no fundo estas miúdas de hoje em dia também são violadas porque se calhar "também provocam um bocadinho". Ou seja o pobre de direita é assim uma espécie de justicialista covarde pacifista genéticamente modificado.

O pobre de direita no fundo acha que aquela casa na sua terra que o pai lhe deixou mais o apartamento que está a pagar ao banco na Rinchoa valem mais de 500 mil euros, isso porque nunca leu sequer a caderneta predial da sua própria propriedade e a única coisa que sabe sobre fiscalidade e a sua relação com a sua própria vida financeira, é o que lhe diz o vizinho que lhe preenche o IRS - também ele um pobre de direita - e o que explica o José Gomes Ferreira na televisão. É por isso que, por estes dias, o pobre de direita odeia a Mariana Mortágua, porque está absolutamente convencido que esta quer taxar aquela conta bancária que ele mantém quase sempre abaixo de zero, endividando-se cada vez mais, a cada mês que passa ao seu banco de sempre a quem ainda agradece o facto de este lhe vender dinheiro cujo peso o tornará num escravo perpétuo.

O pobre de direita sabe que nunca ficará rico a trabalhar, sabe mesmo que instintivamente que o sistema não funciona a seu favor, mas acredita nas estórias dos supostos construtores de impérios que sem sorte e sem ajuda foram de mecânicos a donos da Maserati.

O pobre de direita acredita nas cartas virais das professoras poupadinhas e acredita nelas pela simples razão de que tem de acreditar para poder suportar sem enlouquecer, a infinita corrida de ratos que é a sua vida mas também o suporte do sistema capitalista de raiz oligárquica em que este país vive há mais de dois séculos. A razão porque o pobre de direita odeia agora Mariana é porque ela se colocou entre o pobre de direita e o seu sonho acordado de que está ao mesmo nível de oportunidades de ascensão social de Jorge Coelho, Ferreira do Amaral ou Horta Osório e detesta que lhe demonstrem a mentira que isso é.

Amanhã o pobre de direita achará outra coisa que odiar, até porque se alguma coisa existe em que o pobre de direita é bom é a odiar, isto é claro, se não houver um jogo de futebol na televisão.

O pobre de direita é triste porque não sabe o quão pobre é...em valor tributável mas acima de tudo em espírito.

O pobre de direita foi Salazar, foi Cavaco, foi Relvas, Portas e agora é Passos.

"Como eu tenho horror a pobre"
...de direita.

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